Canto XXIV

Resumo & Análise

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Personagens

RESUMO

A Segunda Nékyia
O Canto não abre na luz de Ítaca, mas nas sombras gélidas do submundo (Hades). Hermes, o deus mensageiro portador do seu caduceu dourado, conduz as almas dos 108 pretendentes mortos. Compara-se os seus guinchos aos de morcegos esvoaçando no fundo de uma caverna fria — uma imagem de esvaziamento total. Eles, que banqueteavam como reis na terra, são agora sombras patéticas.
O Tribunal dos Heróis
No Hades, os grandes fantasmas da Guerra de Troia, Aquiles e Agamemnon, conversam sobre a glória (kléos) e a morte. Quando a horda de pretendentes chega, o fantasma de Anfimedonte relata o massacre. Curiosamente, tenta culpar a astúcia da teia de Penélope e a brutalidade de Odisseu, tentando vitimizar-se.
A Redenção do Medo Antigo
A resposta de Agamemnon é um dos pilares de toda a obra. Ele não chora pelos pretendentes; em vez disso, ergue uma louvação imortal à virtude de Penélope. Agamemnon foi assassinado pela sua própria esposa (Clitemnestra) quando regressou de Troia. Ao ver que Penélope se manteve fiel e orquestrou a vitória do marido, a grande ferida moral do universo grego é curada. Agamemnon decreta que a glória de Penélope será cantada para sempre.

ANÁLISE

A xênia não é apenas “educação”, mas a lei suprema que regula as interações entre estranhos no universo de Odisseia. Sem ela, o mundo é um caos de monstros. A xênia funciona como um medidor de civilização. Quando Odisseu encontra os feácios (Canto VI-VIII), é acolhido perfeitamente — banhado, alimentado e presenteado antes mesmo de ser questionado sobre seu nome. Isso os coloca no topo da escala de retidão.  O Ciclope Polifemo (Canto IX), por sua vez, é o anti-exemplo total. Ele inverte a lei: em vez de oferecer comida ao hóspede, devora o hóspede. Esse comportamento não é apenas falta de etiqueta, mas a própria definição de selvageria que ameaça a ordem social que Odisseu tenta proteger. Em Ítaca, os pretendentes transformam a xênia numa parasitagem. Ao permanecerem na casa de um anfitrião ausente e consumirem seus bens sem qualquer respeito, cometem a húbris suprema, o que justifica, sob a ótica homérica, a violência corretiva final.

O Teste de Laertes
De volta ao mundo dos vivos, Odisseu, acompanhado por Telêmaco e pelos servos fiéis, marcha para os campos agrícolas afastados da cidade para encontrar o seu velho pai, Laertes.
O Rei na Miséria
Odisseu encontra o antigo rei de Ítaca vestido com farrapos sujos, luvas de couro remendadas e um gorro de pele de cabra, curvado sobre a terra a cuidar de uma planta. A degradação de Laertes é a prova física do quanto a ausência de Odisseu sugou a vida do seu oikos (lar/linhagem).
O Hábito Incurável da Mêtis
Num momento que espanta muitos mortais, Odisseu não abraça o pai de imediato. Em vez disso, testa-o cruelmente. Finge ser um estrangeiro e diz ter conhecido Odisseu há muitos anos, sugerindo que ele possa estar morto. Laertes desaba em choro, atirando cinzas de luto sobre a própria cabeça. Por que Odisseu faz isto? Porque a desconfiança tornou-se a sua segunda pele. Ele precisa de ver a prova absoluta do luto do pai antes de baixar a sua última muralha.
A Árvore e a Cicatriz
Quando o coração do filho não suporta mais ver a dor do velho, revela-se. Mas Laertes, calejado pelo sofrimento, também exige provas (anagnorisis). Odisseu não mostra apenas a velha cicatriz da perna, mas também recita de cor o número exato de árvores que o pai lhe deu quando era apenas um menino no pomar (treze pereiras, dez macieiras, quarenta figueiras…). O reconhecimento não se dá pela realeza, mas pela memória partilhada da terra e da infância.

O oikos é a linhagem, a casa, a propriedade e o núcleo emocional do herói Odisseu. É o centro gravitacional para onde todo o enredo converge. O objetivo de Odisseu não é a conquista de novas terras, mas a restauração do seu oikos que está a apodrecer na sua ausência. A ausência de Odisseu deixa o lar vulnerável, não apenas fisicamente, mas ontologicamente. O leito nupcial, esculpido na oliveira enraizada (Canto XXIII), é o símbolo definitivo do oikos. Ele não pode ser movido porque está preso à própria terra de Ítaca. Isso simboliza que a família, quando saudável, é uma extensão da estabilidade da própria nação. Quando as servas traem a casa ou os pretendentes violam o espaço privado de Penélope, eles não estão apenas a roubar objetos; estão a tentar apagar a identidade de Odisseu, transformando o seu oikos num lugar sem história e sem honra.

A Fúria da Pólis
Enquanto as três gerações da linhagem (Laertes, Odisseu e Telêmaco) almoçam juntas e reafirmam a ordem patriarcal, a cidade de Ítaca entra em ebulição. A deusa Fama espalha a notícia do massacre.
O Luto e a Ira
Os pais e irmãos dos pretendentes reúnem-se na praça pública. Eupites, o pai de Antínoo (o primeiro pretendente a ser morto), faz um discurso inflamado e exige o sangue de Odisseu, argumentando que o rei perdeu a primeira geração de Ítaca no mar (os marinheiros) e massacrou a segunda no palácio.
A Falha da Diplomacia
Mais de metade dos homens, cegos pela dor, pegam em armas e marcham em direção ao pomar de Laertes. A lei da vingança de sangue (a vendeta) ameaça mergulhar a ilha numa guerra civil interminável.

Se o herói da Ilíada (Aquiles) é definido pela força do braço, o herói da Odisseia é definido pela mêtis, que é a capacidade de se adaptar, de mentir por necessidade, de criar disfarces e de encontrar caminhos onde não existem. É o intelecto que vence a força bruta. Odisseu vencendo Polifemo ao chamar-se “Ninguém” é a vitória máxima da mêtis. Contudo, o excesso de mêtis (como o desfrute em ver o ciclope enganado) pode converter-se em húbris (orgulho). Ao revelar o seu nome por vaidade após a vitória, Odisseu entrega a Polifemo o poder de amaldiçoá-lo, o que condena sua jornada a ser muito mais longa e dolorosa. Telêmaco, ao longo dos primeiros quatro cantos (a “Telemaquia”), aprende a mêtis do pai: aprende a dissimular, a observar e a esperar pelo momento certo para agir, deixando de ser um jovem reativo para se tornar um estratega.

O Deus Ex Machina
No Olimpo, Atena questiona Zeus sobre o que fazer. Zeus decreta que Odisseu já aplicou a justiça, e que agora é o momento de instaurar a paz, lavando a memória do banho de sangue das mentes dos cidadãos. Quando os rebeldes chegam à quinta, a batalha rebenta, mas de forma muito breve. Infundido de um vigor e glória divinos por Atena, o velho Laertes arremessa a sua lança e atravessa a cabeça de Eupites. A linhagem do herói prova a sua letalidade absoluta. Telêmaco e Odisseu preparam-se para aniquilar o resto dos cidadãos.
O Trovão de Zeus
Mas quando Odisseu solta o seu grito de guerra e avança para trucidar o seu próprio povo, um relâmpago flamejante de Zeus cai a seus pés. É o limite imposto pela divindade.
O Pacto
A deusa Atena, assumindo mais uma vez a forma do sábio Mentor, ordena que a matança cesse imediatamente. Odisseu, contendo a fúria da sua natureza de guerreiro, obedece com alegria no coração. Sob as vistas dos deuses, é selado um pacto sagrado de amnésia e paz duradoura entre o Rei e os cidadãos de Ítaca.

A Teodiceia é a justificação moral da minha narrativa. É o que transforma uma chacina (o massacre dos pretendentes) em um ato de justiça divina. Na Odisseia não se permite que atos de injustiça fiquem impunes. A húbris dos pretendentes em violar a xênia exige um pagamento. A Teodiceia aqui não é vingança pessoal, mas sim a restauração de um equilíbrio que foi quebrado. Zeus, Atena e Poseidon não são observadores neutros, mas agem conforme a retidão das ações humanas. Quando Odisseu mata os pretendentes no Canto XXII, está a atuar como o braço executor de Zeus. O trovão que ecoa no Canto XXI, num céu limpo, é o “carimbo” cósmico de aprovação para a purificação que está por vir. Mesmo para Odisseu, há um preço. A sua húbris precisa de ser expiada. A profecia de Tirésias (Canto XI) sobre carregar o remo até terras onde o mar seja desconhecido é o rito de purificação final, simbolizando a transição de um herói de guerra (mar) para um pacificador da terra.

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