Canto XVII

Resumo & Análise

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Canto XVIII

RESUMO

O Retorno de Telêmaco
Ao amanhecer, Telêmaco despede-se de Eumeu e do pai disfarçado, dirigindo-se ao palácio. Ele não é mais o rapaz indefeso do Canto I; ele caminha com a autoridade de um príncipe que conhece o seu destino.
O Reencontro com Penélope
Quando Telêmaco entra, é recebido com lágrimas de alívio por sua mãe, Penélope, e pela velha ama Euricleia. Contudo, Telêmaco demonstra o seu amadurecimento tático: ele ordena à mãe que se banhe e ore aos deuses, recusando-se a revelar imediatamente o que sabe.
A Profecia de Teoclímeno
Telêmaco relata a sua viagem a Pilos e Esparta, mas omite que Odisseu está na ilha. É o adivinho Teoclímeno (que Telêmaco trouxe consigo) quem quebra o silêncio, proferindo um juramento solene a Penélope: Odisseu já está em Ítaca, observando a maldade dos pretendentes e preparando a vingança. A semente da esperança é plantada no coração da rainha.

ANÁLISE

Ao caminhar em direção ao palácio com autoridade, Telêmaco demonstra que o medo que o paralisava perante os pretendentes evaporou. Ele já não é uma vítima na sua própria casa; ele assumiu a responsabilidade do seu Oikos (o lar grego) e caminha com a certeza gélida de quem traz a morte a reboque. Ao ordenar que a mãe se banhe e ore aos deuses, Telêmaco inverte a hierarquia. Pela primeira vez, é ele quem dá ordens à rainha. Ele assumiu o trono patriarcal. Telêmaco herdou, finalmente, a inteligência tática (mêtis) do seu pai. Ele recusa-se a revelar a verdade porque sabe que a emoção de Penélope poderia denunciar a presença de Odisseu aos espiões e servas traidoras do palácio. Para salvar a mãe, ele precisa, momentaneamente, de ser frio com ela.

A Degradação Moral
Enquanto isso, Odisseu e o fiel porqueiro Eumeu iniciam a caminhada em direção à cidade. Perto de uma fonte de água construída pelos antepassados do rei, eles deparam-se com o cabreiro Melântio.
A Traição dos Servos
Melântio é a personificação da corrupção interna de Ítaca. Ao contrário de Eumeu, que permaneceu leal, Melântio aliou-se aos pretendentes. Ele profere insultos terríveis contra Eumeu e o mendigo, culminando num ato inaceitável de violência física: ele chuta Odisseu no quadril.
O Triunfo do Intelecto sobre a Ira
Este é um momento de extrema tensão psicológica. O instinto de guerreiro de Odisseu grita para que ele esmague o crânio de Melântio com o seu cajado ou o levante e o atire ao chão. No entanto, ele engole a fúria e permanece imóvel. Ele compreende que reagir agora estragaria o disfarce e condenaria o plano maior. É a vitória do intelecto e da resiliência estoica sobre o ego ferido.

Para os antigos gregos, o oikos não era apenas uma casa; era o centro do universo político, econômico e espiritual. Odisseu não regressa a um campo de batalha épico, regressa a um oikos gravemente doente. A degradação do lar espelha a degradação de toda a Ítaca. A insolência do cabreiro Melântio não é apenas a atitude de um servo rebelde; é a prova patológica de que a húbris (arrogância desmedida) dos pretendentes apodreceu a estrutura da sociedade de cima a baixo. Quando o rei (o pilar da ordem) está ausente, o sistema entra em colapso e os de pior caráter sentem-se autorizados a oprimir os mais fracos. A maior batalha de Odisseu em toda a epopeia ocorre neste canto, mas é uma batalha puramente psicológica. Na mentalidade do guerreiro clássico (como Aquiles), o thymos (a defesa imediata da honra) é o motor da ação. Quando o servo Melântio agride o seu rei disfarçado com um chute, o instinto primário de Odisseu é matá-lo ali mesmo, esmagando-lhe o crânio. No entanto, Odisseu escolhe ficar paralisado, engolindo o insulto. Ele amarra o seu thymos aos ditames da sua mêtis (a razão astuciosa, o cálculo a longo prazo). Ele compreende que vingar o seu ego ferido naquele momento custaria a sua vida e a sua missão. Odisseu atinge aqui o ápice do seu amadurecimento como herói: o absoluto autodomínio. Ele não é mais o homem irresponsável que gritou o seu verdadeiro nome ao Ciclope Polifemo por pura vaidade no Canto IX; ele é agora o arquiteto frio do destino.

Argos, o Cão
Ao chegarem aos portões do palácio, presenciamos uma das cenas mais comoventes de toda a literatura ocidental. Deitado sobre um monte de esterco, cheio de carrapatos, abandonado e moribundo, está Argos, o cão de caça que Odisseu treinou há vinte anos, antes de partir para Troia.
O Reconhecimento Puro
Diferente das pessoas, que precisam de sinais e de revelações para reconhecerem Odisseu por baixo dos trapos, Argos reconhece a essência do seu dono instantaneamente. Sem forças para se levantar, ele apenas abana o rabo e abaixa as orelhas.
A Lágrima Oculta
Odisseu, o homem que suportou os horrores de Troia, a fúria de Poseidon e a aniquilação de todos os seus companheiros, não consegue conter a emoção. Ele vira o rosto e deixa cair uma única lágrima escondida de Eumeu.
O Simbolismo da Morte
Tendo esperado vinte anos apenas para ver o seu mestre retornar, o coração de Argos finalmente cede e ele morre. Argos simboliza a verdadeira Ítaca: outrora gloriosa, agora reduzida à imundície pela negligência, mas cuja lealdade intrínseca ao seu rei permaneceu inabalável.

A cena do cão Argos é uma das passagens mais densas e belas de toda a literatura ocidental. Humanos como Penélope e Eumeu precisam de discursos, de sinais físicos (como a cicatriz) e de tempo para reconhecerem o rei através das vestes de mendigo. Argos não. O cão capta a essência imutável do seu mestre. A verdadeira lealdade é instintiva, não racional. Argos encarna a própria pátria de Odisseu. Outrora ágil, nobre e belo na caça, agora jaz decrépito sobre um monte de esterco de mula, devorado por parasitas e esquecido. Odisseu derrama uma única lágrima furtiva. É o pranto silencioso por tudo o que o tempo, a guerra e a negligência destruíram. A morte de Argos no instante exato em que reencontra o mestre é simbolicamente necessária: o velho cão (a velha Ítaca de vinte anos atrás) morre pacificado, abrindo espaço para que uma nova ordem nasça pelo arco de Odisseu.

O Rei Mendigo
Odisseu entra no seu próprio salão. Seguindo o conselho de Atena, ele começa a mendigar pão de mesa em mesa, não porque tenha fome, mas para testar o caráter de cada pretendente e verificar quem obedece às sagradas leis da hospitalidade (xênia).
O Confronto com Antínoo
Antínoo, o mais arrogante e violento dos pretendentes, recusa-se a dar comida (mesmo a comida não sendo dele, pois ele a está usurpando de Odisseu). Odisseu repreende-o com ironia: “Tens a aparência de um rei, mas não tens a nobreza de dar um pedaço de pão que não te pertence.”
A Agressão e a Pedra
Fervendo de ódio, Antínoo atira um pesado escabelo (banquinho) que atinge em cheio as costas de Odisseu. O herói, mais uma vez, suporta o impacto e não se move, erguendo-se firme “como uma rocha”. Ele apela silenciosamente às Fúrias que protegem os mendigos. A húbris (arrogância desmedida) de Antínoo é tão chocante que até os outros pretendentes o recriminam, temendo que o mendigo seja um deus disfarçado.

Ao recusar um pedaço de pão ao mendigo (um pão que ele, Antínoo, está usurpando da casa do próprio Odisseu) e, pior, ao agredi-lo fisicamente com um banco, Antínoo comete uma profanação suprema. A sua arrogância cega-o de tal forma que ele se esquece do temor aos deuses, um pavor que atinge até os outros pretendentes, que avisam: “E se este for um deus do Olimpo disfarçado?”. Literariamente, precisava-se que Antínoo fizesse isso. Ao forçar o limite da maldade humana, transformou-se os pretendentes em monstros irremediáveis. Quando o banho de sangue começar no Canto XXII, o leitor não sentirá pena deles, pois a matança não será lida como vingança, mas como purificação e teodiceia (a justiça divina executada na Terra). Quanto a Telêmaco, este demonstra ter herdado a mêtis fria do pai. Ao ver Odisseu ser agredido com o banco por Antínoo, ele não pisca nem deixa cair uma lágrima. A sua dor é dissimulada, o seu autocontrole é perfeito. A semente do lobo germinou.

A Curiosidade de Penélope
A notícia da agressão chega aos aposentos da rainha. Penélope amaldiçoa Antínoo e, intrigada pela presença daquele mendigo maltratado, pede a Eumeu que o traga aos seus aposentos, esperando que ele possa ter ouvido alguma notícia do seu marido perdido. Demonstrando profunda sabedoria, Odisseu pede a Eumeu que diga à rainha para esperar até o cair da noite. Ele sabe que a escuridão os protegerá dos olhares violentos dos pretendentes e permitirá uma conversa mais íntima.

Embora ainda iludida sobre a identidade do forasteiro, a sua inabalável bússola moral atrai Penélope para o mendigo. Ela abomina a agressão e pede para falar com o homem esfarrapado. A sua empatia é o veículo que garantirá que, no momento certo, marido e mulher voltem a ser a mesma força indivisível.

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