RESUMO
Chegada ao Palácio de Alcínoo
Após receber as instruções de Nausïcaa, Odisseu dirige-se à cidade dos feácios.
A Proteção de Atena
Para proteger Odisseu da hostilidade ou curiosidade excessiva dos habitantes feácios, a deusa Atena envolve-o em uma névoa espessa, tornando-o invisível enquanto ele atravessa a cidade. Isso permite que o herói observe o porto e a arquitetura extraordinária dos feácios sem ser interrompido.
A Esquéria Idílica
Homero descreve a cidade dos feácios como um lugar de abundância quase mítica, onde jardins e pomares nunca perdem seus frutos, simbolizando um mundo que está à parte da brutalidade da Guerra de Troia ou do caos que Odisseu viveu.
ANÁLISE
O canto inicia com Odisseu dirigindo-se à cidade dos feácios. Atena, sua protetora incondicional, não o abandona. Ciente de que os feácios são um povo de marinheiros orgulhosos e, muitas vezes, hostis ou desconfiados com forasteiros, a deusa intercede duplamente: assume a forma de uma jovem carregando um cântaro de água para guiar Odisseu sem chamar atenção; e também derrama uma névoa mágica espessa sobre Odisseu, a qual permite que caminhe pelo porto, observe os formidáveis navios feácios e chegue ao palácio sem sofrer o assédio ou a fúria cega dos habitantes locais. Essa invisibilidade não é apenas um truque mágico; é uma metáfora para o isolamento persistente de Odisseu, que está no meio de uma sociedade vibrante, mas continua sendo um fantasma, um “ninguém”, desprovido de nome e de frota.
A Utopia Feácia
Ao chegar aos portões, Odisseu para, maravilhado. É uma verdadeira Idade de Ouro: paredes de bronze, cornijas de esmalte azul e portas de ouro; cães de ouro e prata, imortais e isentos de velhice, que guardam os portões; um pomar mágico onde as frutas nunca apodrecem nem faltam; enquanto uma amora amadurece, outra já está despontando.
Este paraíso serve para testar Odisseu. Ele está diante de um mundo sem dor, sem inverno e sem carência — muito semelhante à ilha de Calipso. A grandiosidade do palácio realça a força de vontade de Odisseu, que recusa qualquer tentação de imortalidade ou utopia em favor da sua rochosa e imperfeita Ítaca.
O Ambiente Palaciano
Ao chegar ao palácio do Rei Alcínoo, Odisseu rompe a névoa e prostra-se aos pés da Rainha Arete, a esposa de Alcínoo, conforme Nausïcaa havia aconselhado. Este gesto é crucial: suplicando à rainha, e não ao rei, reconhece a influência política e o respeito que Arete detém entre os feácios. Após a fala, o herói senta-se nas cinzas da lareira, o lugar de maior submissão.
A Intervenção de Equeneu
O silêncio prolongado de Alcínoo é quebrado por Equeneu, o ancião mais velho dos feácios, que o repreende sutilmente, lembrando-o de que deixar um suplicante nas cinzas é uma ofensa aos deuses.
A Recepção
Apesar da estranheza de ver um homem sujo e desconhecido em seu palácio, Alcínoo cumpre as leis da hospitalidade (xênia) de forma exemplar. O rei levanta Odisseu, oferece-lhe um lugar de honra (a cadeira de seu filho favorito Laodamante) e ordena que seja servido com comida e vinho.
Antes de desaparecer, Atena dá a Odisseu uma lição fundamental sobre a política de Esquéria: o verdadeiro poder de aceitação reside na rainha, Arete. Atena explica a genealogia (Arete é sobrinha e esposa do Rei Alcínoo) e destaca a sua virtude pacificadora e o respeito divino que recebe do povo. Homero subverte as expectativas patriarcais do mundo grego clássico. A instrução é clara: Odisseu não deve implorar ao rei, mas sim jogar-se aos pés da rainha. Se Arete o olhar com simpatia, o seu retorno a Ítaca estará garantido.
O Interrogatório de Arete
Quando os convidados saem e Odisseu fica a sós com os reis, Arete prova ser tão observadora e afiada quanto Atena alertara. Ela não pergunta imediatamente sobre a sua história, mas nota algo incriminador: as roupas de Odisseu. Ela pergunta: “Quem és tu? E quem te deu essas roupas?” (Afinal, fora a própria rainha e suas servas quem as haviam tecido).
A Retórica de Odisseu
Num golpe de mestre retórico, Odisseu esquiva-se de revelar o seu nome — mantendo o controle total sobre a narrativa. Ele conta uma versão cuidadosamente editada da sua jornada: a prisão com a deusa Calipso em Ogígia, a tempestade brutal de Poseidon e a chegada exaustiva à costa.
Protegendo Nausïcaa
Ele relata o encontro com Nausïcaa, elogiando o caráter da jovem. Quando Alcínoo critica a própria filha por não ter trazido o forasteiro pessoalmente ao palácio junto com as servas, Odisseu comete uma “mentira branca e nobre”. Ele mente dizendo que ele próprio se recusou a acompanhá-la por medo de causar irritação ou ciúmes no rei, assumindo a culpa para proteger a reputação impecável da princesa (quando, na verdade, foi Nausïcaa mesma quem lhe deu essa ordem).
Quando Arete interroga Odisseu, ela o faz porque reconhece as roupas que ele veste (tecidas por ela e pelas suas servas). No mundo homérico, a tecelagem não é apenas um trabalho doméstico, mas é um símbolo da astúcia e do controle feminino sobre a narrativa e a ordem social (como Penélope que tece e destece a mortalha em Ítaca). Arete, ao reconhecer a roupa, demonstra uma intuição aguçada que obriga Odisseu a ser cauteloso. Ainda, sabe-se que Odisseu é o “homem de mil ardis”, e o Canto VII é o seu palco retórico por excelência. Ele está sozinho numa corte desconhecida e tem de manipular a sua audiência. Repara que, em momento algum deste canto, Odisseu revela o seu nome, e cria suspense. Sabendo que o seu nome está carregado de bagagem política e inimizades (o ódio de Poseidon, divindade tutelar dos feácios), foca a sua narrativa apenas na sua dor, garantindo a empatia dos reis antes de expor a sua identidade. E quando Alcínoo repreende Nausïcaa por não ter trazido o hóspede diretamente para o palácio, Odisseu mente descaradamente para a proteger. Ele diz que foi ele quem recusou ir com ela, por medo da ira do rei. Esta “mentira branca” demonstra a sofisticação da sua mêtis diplomática: abdica da verdade estrita em prol de um bem maior (manter a honra da princesa e bajular o ego patriarcal do rei).
A Proposta de Casamento
Alcínoo fica profundamente impressionado com o tato, a inteligência, o porte físico e o caráter moral do forasteiro. É nesse momento que o rei feácio faz a maior oferta de todas: ele deseja que um homem com a índole de Odisseu se case com Nausïcaa e fique em Esquéria, tornando-se seu genro, cercado de riqueza e paz. No entanto, demonstrando a excelência de um rei justo, Alcínoo afirma que não o prenderá contra a sua vontade. Se Odisseu quiser partir, amanhã mesmo os feácios armarão um navio para ele. A noite encerra-se com Odisseu, após anos de sofrimento no mar e nas pedras, finalmente deitando-se numa cama confortável providenciada pela poderosa Arete.
A oferta de casamento com Nausïcaa não é apenas um gesto de generosidade; é a tentação suprema. Odisseu passou os últimos sete anos preso na ilha de Calipso, que lhe oferecia a imortalidade, e acaba de sobreviver à fúria aniquiladora de Poseidon. Agora, Alcínoo oferece-lhe o paraíso na terra: uma princesa jovem e bela, riqueza inesgotável, paz absoluta e ausência de sofrimento. Aceitar esta oferta significaria apagar a dor, mas também significaria desistir do seu nostos (o regresso a casa) e de Penélope. É o momento em que Odisseu tem de escolher, conscientemente, voltar para uma ilha pedregosa (Ítaca), para uma esposa envelhecida pelo tempo e para uma casa infestada de inimigos, rejeitando a utopia sedutora dos feácios. Ele escolhe a dor da realidade em vez da anestesia da fantasia.

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