Canto V

Resumo & Análise

RESUMO

A Segunda Assembleia dos Deuses
O canto inicia-se com uma nova manhã no Olimpo e uma nova assembleia divina. Atena, sempre a protetora incansável, toma a palavra para relembrar aos deuses o sofrimento de Odisseu, preso na ilha de Calipso, e denuncia o plano de assassinato que os pretendentes armaram contra Telêmaco.

A Ordem Suprema
Zeus consola a filha (afirmando que ela mesma pode cuidar de Telêmaco) e, finalmente, dá a ordem definitiva. Ele convoca Hermes, o deus mensageiro, para ir à ilha de Ogígia e informar à ninfa Calipso que o exílio de Odisseu acabou. Zeus profetiza o percurso: Odisseu não voltará em um navio divino nem com ajuda humana inicial. Ele construirá uma jangada sozinho, sofrerá no mar por vinte dias até chegar a Esquéria, a terra dos feácios. Lá, será tratado como um deus e, finalmente, levado para Ítaca com riquezas incalculáveis.

ANÁLISE

O destino de Odisseu é selado burocraticamente longe dele, evidenciando como os humanos habitam um tabuleiro regido por forças maiores. A narrativa divina abre com Atena defendendo o herói perante a assembleia e denunciando o complô de assassinato contra Telêmaco. Zeus decreta o percurso metódico do exílio final: Odisseu viajará sem ajuda humana, sofrerá no mar por vinte dias até alcançar a terra dos feácios e, por fim, retornará a Ítaca com riquezas.

O Esplendor de Ogígia
Hermes calça suas sandálias douradas voadoras, pega seu caduceu e voa sobre o mar até Ogígia. A ilha de Calipso é descrita por Homero com uma riqueza botânica e sensorial estonteante — vinhas verdejantes, quatro fontes de água cristalina, bosques perfumados com cedro e incenso, pássaros exóticos. É um paraíso terreno tão belo que até Hermes, um deus imortal, para admirado.

A Fúria de Calipso
Ao receber a ordem de Zeus, Calipso tem uma reação explosiva e profundamente humana. Em um dos primeiros “protestos contra o duplo padrão de gênero” da literatura ocidental, ela acusa os deuses de inveja e hipocrisia. Ela argumenta que os deuses masculinos tomam amantes mortais livremente, mas quando uma deusa salva um homem naufragado e o ama (como ela fez com Odisseu, oferecendo-lhe até a imortalidade), os deuses do Olimpo não toleram. Apesar da revolta, Calipso sabe que ninguém pode desafiar a Vontade (égide) de Zeus, então ela cede.

Quando o deus mensageiro Hermes leva a ordem até Ogígia, a reação de Calipso torna-se um dos primeiros protestos literários contra o duplo padrão de gênero. Ela escancara a hipocrisia das divindades masculinas, argumentando que eles tomam amantes mortais livremente, mas punem deusas que salvam e amam homens naufragados. Apesar da fúria fundamentada, a imposição da Vontade (égide) de Zeus é incontestável, forçando a ninfa a ceder.

A Primeira Visão do Herói
Odisseu é o “homem de muitos ardis”, o grande guerreiro e estrategista da Guerra de Troia, mas a primeira vez que Homero nos apresenta, ele não está lutando nem banqueteando, mas  sentado sozinho na praia pedregosa, olhando para o mar infinito, chorando. Ele passa os dias consumindo a própria alma com saudades de casa (nostos). Homero deixa claro que ele já não tem prazer na cama da deusa; é um prisioneiro do paraíso.

O Teste de Calipso
A ninfa vai até ele e diz que ele pode partir. Desconfiado por natureza após anos de infortúnios e traições divinas, Odisseu exige que Calipso faça o juramento solene pelo rio Estige de que não está armando uma nova armadilha. Ela sorri, reconhecendo a astúcia do seu amado, e jura. Durante a última ceia juntos, Calipso tenta Odisseu uma última vez. Ela pergunta por que ele prefere uma esposa mortal, que envelhecerá e morrerá, em vez dela, uma deusa imortal de juventude e beleza eternas. Com extrema habilidade verbal, Odisseu concorda que Penélope é inferior em beleza e estatura, mas afirma que o seu desejo de ver o dia do retorno, de voltar ao seu lar, supera qualquer oferta cósmica. Ele escolhe a mortalidade e o sofrimento humano em vez da estagnação num paraíso sem propósito.

A primeira introdução física do herói na epopeia rompe drasticamente com as expectativas de um guerreiro vitorioso ou de um rei banqueteando. Odisseu é retratado de forma profundamente vulnerável, chorando sozinho numa praia pedregosa enquanto é consumido pela saudade (nostos). O esplendor estonteante e sensorial da ilha de Ogígia — com suas fontes de água cristalina, bosques perfumados e pássaros exóticos — funciona para ele apenas como uma prisão dourada. O ápice analítico desta seção reside na recusa da imortalidade. Odisseu escolhe filosoficamente a mortalidade em detrimento da juventude e beleza eternas oferecidas por Calipso. Com extrema habilidade diplomática, ele valida a inferioridade cósmica de Penélope, mas afirma que o seu desejo obstinado de retornar ao lar supera qualquer estagnação em um paraíso sem propósito humano.

O Homem Fabril: A Construção da Jangada
Com um machado de bronze e ferramentas cedidas por Calipso, Odisseu deita abaixo vinte árvores e, com habilidade de mestre construtor, fabrica uma jangada larga e robusta em apenas quatro dias. No quinto dia, Calipso o banha, dá-lhe roupas perfumadas, provisões de comida, vinho e água, e envia uma brisa suave para ajudá-lo. Odisseu zarpa, guiando-se pelas constelações (como as Plêiades e a Ursa Maior), conforme a deusa o instruiu.

Odisseu incorpora o “Homem Fabril”, demonstrando sua engenhosidade ao construir uma jangada robusta em quatro dias e zarpando guiado pelas estrelas. Porém, o status quo é violentamente rompido.

A Ira de Poseidon
Por dezessete dias, Odisseu navega em paz, já conseguindo avistar os contornos sombrios da terra dos feácios. Mas, no décimo oitavo dia, a tragédia ataca. O deus dos mares (que estava ausente, num banquete entre os etíopes) retorna e vê Odisseu no mar. Furioso ao perceber que os outros deuses libertaram seu inimigo nas suas costas, Poseidon decide dar-lhe um último tormento antes que ele alcance terra firme e convoca as nuvens, agita o mar com seu tridente e liberta os ventos de todas as direções de uma só vez. Odisseu, aterrorizado, sente seus joelhos cederem. Em um momento de desespero sombrio, ele lamenta não ter morrido em Troia, onde teria tido glória militar e funerais dignos; morrer afogado sozinho no mar era considerado uma morte sem glória. A jangada é estilhaçada, e Odisseu é atirado ao fundo do mar, sufocado e afogado pelas roupas pesadas que Calipso lhe deu.

Após dezessete dias de navegação pacífica, o deus Poseidon retorna e descobre a fuga do seu inimigo. Furioso, Poseidon desencadeia uma tempestade cataclísmica, convocando nuvens e libertando simultaneamente os ventos Eurus, Notus, Zéfiro e Bóreas. A destruição da jangada aterroriza Odisseu, levando-o a revelar o núcleo dos valores homéricos: o lamento por não ter perecido na Guerra de Troia. Para a mentalidade da época, morrer em combate garantia honras fúnebres e glória militar; em contrapartida, o afogamento anônimo e solitário no mar representava a pior morte possível.

A Luta pela Vida
Odisseu consegue emergir e agarra-se desesperadamente a um tronco da jangada em ruínas. 

A Deusa Leucótea (Ino)
Uma deusa menor do mar compadece-se dele. Ela emerge das águas na forma de uma gaivota e entrega-lhe um véu divino (kredemnon). Ela o instrui a despir-se das pesadas roupas divinas, abandonar a jangada, amarrar o véu no peito e nadar, garantindo que o véu o impedirá de afogar-se. Fiel à sua natureza desconfiada, Odisseu hesita em abandonar a jangada até que uma onda a destrói de vez. Sem alternativa, veste o véu e nada.

A Intervenção de Atena
Poseidon parte satisfeito, achando que puniu o herói o suficiente. Atena então entra em ação, silenciando todos os ventos violentos, com exceção do vento favorável do Norte, aplainando o caminho para Esquéria.

A jornada pelo oceano revolto é, em sua essência, um rito de passagem focado na desconstrução completa do herói. Homero despe Odisseu de absolutamente todas as suas vantagens prévias. Durante o calvário absoluto, a ajuda divina só funciona quando o próprio herói faz a sua parte. A deusa Leucótea (Ino) doa-lhe um véu divino (kredemnon) e Atena silencia os ventos mortais, aplainando a rota para Esquéria.

O Calvário nos Rochedos e o Renascimento
Por dois dias e duas noites, Odisseu flutua no oceano aberto, à beira da morte. No terceiro dia, avista terra firme, mas a alegria dura pouco: a costa é uma barreira de penhascos e recifes afiados cortados por ondas monstruosas. Odisseu é atirado contra as pedras, tendo a pele das mãos arrancada (Homero compara-o vividamente a um polvo arrancado de sua toca com pedrinhas presas em seus tentáculos). Quase afogado pelas ondas de ressaca, consegue contornar a costa nadando, até encontrar a foz pacífica de um rio. Ele dirige uma prece desesperada ao Deus do Rio, pedindo asilo como um suplicante. O deus apieda-se dele, interrompe a correnteza e o acolhe em águas calmas.

O desfecho consolida a temática de Renascimento. Odisseu sobrevive porque engole o orgulho e faz uma prece desesperada suplicando asilo ao Deus do Rio. 

O Sono Nu
Odisseu rasteja para a margem, sem fôlego, inchado pela água do mar e sangrando. Num gesto de piedade religiosa, desamarra o véu de Ino e o joga de volta ao rio sem olhar para trás. Livre, mas completamente esgotado e nu, reflete sobre o frio congelante da noite. Ele se arrasta para o interior de um bosque e improvisa uma cama de folhas secas debaixo de duas oliveiras (uma silvestre e uma cultivada – símbolos da proteção de Atena). Ali, Atena derrama o sono profundo sobre seus olhos, apagando o esgotamento cósmico do herói.

Acolhido em águas calmas, rasteja para a terra firme nu, sangrando, exausto e devolvendo religiosamente o véu de Ino às águas. Ao improvisar uma cama de folhas sob oliveiras (o grande símbolo da proteção de Atena), o sono profundo apaga o seu esgotamento cósmico. O Canto V escancara que a força inabalável de Odisseu não repousa na magia ou nos exércitos, mas no puro e obstinado desejo de viver para reaver a sua casa.

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