RESUMO
A Recuperação de Sansão (Boxer) e as Condições de Vida
O casco fendido do cavalo Sansão demora um longo tempo para cicatrizar. Apesar da intensa dor, Sansão recusa-se terminantemente a diminuir o seu ritmo de trabalho na reconstrução do moinho de vento. O seu objetivo declarado é acumular a maior quantidade possível de pedras antes de atingir a idade de aposentadoria (doze anos). O inverno é rigoroso e as rações de comida são novamente reduzidas para todos os animais da granja, com exceção dos porcos e dos cães. Garganta realiza discursos frequentes, lendo listas de estatísticas para convencer os animais de que as rações estão apenas passando por um “reajuste”, e não por uma redução, argumentando que as condições de vida são superiores às da época do Sr. Jones.
ANÁLISE
A figura do cavalo Sansão consolida a representação da classe trabalhadora alienada e explorada. A sua recusa em diminuir o ritmo, mesmo em agonia física, ilustra a eficácia da doutrinação do Estado, que convence o indivíduo a sacrificar a própria vida e o seu bem-estar em prol de uma meta produtiva irrealizável, da qual ele jamais colherá os frutos. O racionamento desigual de alimentos e a retórica de Garganta exemplificam o uso da linguagem e da matemática como instrumentos de controle psicológico. O Estado totalitário mascara o retrocesso econômico e a desnutrição redefinindo as reduções de ração como meros “reajustes”, manipulando a percepção das massas para que aceitem a miséria presente como um avanço em relação ao passado ditatorial anterior.
O Crescimento da População e os Novos Privilégios dos Porcos
No outono, as quatro porcas da fazenda dão à luz simultaneamente a trinta e um leitões. Sendo Napoleão o único varão na granja, o parentesco dos filhotes é evidente. Napoleão determina a construção de uma escola no jardim para a instrução exclusiva dos jovens porcos. Os novos leitões são desencorajados a brincar com filhotes de outras espécies. Estabelece-se uma nova regra: sempre que um porco e outro animal se cruzarem no caminho, o outro animal deve parar e afastar-se para ceder passagem. É concedido aos porcos o privilégio exclusivo de amarrar fitas verdes nos rabos aos domingos.
A segregação espacial e educacional dos leitões, juntamente com a lei implacável da prioridade de passagem, oficializa a destruição do princípio fundador da revolução (“Todos os animais são iguais”). O regime cria uma nova hierarquia inflexível, protegida por normas e privilégios exclusivos. Os porcos assumem de forma explícita os comportamentos da classe opressora que haviam derrubado. A permissão para o uso de fitas verdes nos rabos revela a adoção da vaidade, da frivolidade e dos símbolos de luxo, caracterizando a conversão definitiva dos líderes revolucionários em uma nomenklatura (uma elite burocrática parasitária e privilegiada).
A Proclamação da República e o Retorno de Moisés
Em abril, a Granja dos Bichos é oficialmente proclamada uma República. A realização de uma eleição é estipulada, tendo Napoleão como o único candidato. Ele é eleito Presidente por unanimidade. Garganta revela a descoberta de novos documentos que detalham a participação de Bola-de-Neve na Batalha do Estábulo, alegando que este lutara abertamente ao lado de Jones, tentando conduzir a revolução à derrota. O corvo domesticado Moisés (Moses) retorna à fazenda após anos de ausência. Ele retoma imediatamente os seus discursos sobre a “Montanha de Açúcar Cândi”. Os porcos declaram em público que os relatos de Moisés são mentiras descabidas, no entanto, permitem que o corvo permaneça na fazenda sem a obrigação de trabalhar, concedendo-lhe uma ração diária de cerveja.
A proclamação da República e a realização de eleições com um único candidato (Napoleão) demonstram a apropriação de rituais democráticos para legitimar e enfeitar uma ditadura absolutista. O Estado fornece às massas a ilusão de escolha e poder político apenas para garantir a sua submissão pacífica ao líder supremo. A tolerância e o patrocínio repentino do regime ao corvo Moisés marcam uma mudança estratégica de controle social. A religião (representada pelos contos da “Montanha de Açúcar Cândi”), que antes era vista como inimiga por desviar o foco da revolução terrena, passa a ser útil ao Estado. Ela se torna um verdadeiro analgésico social, oferecendo o conforto de uma vida farta após a morte para apaziguar a revolta e encorajar a resignação diante do trabalho escravo no presente.
O Colapso Físico de Sansão
Durante o fim do verão e início do outono, Sansão sofre um grave colapso enquanto puxa sozinho uma enorme pedra para a construção do moinho, não conseguindo mais se reerguer. Os outros animais correm imediatamente em seu auxílio. Sansão, deitado de lado e sem forças, informa a Cata-Vento que os seus pulmões falharam. Garganta chega ao local demonstrando grande consternação e anuncia que Napoleão, em virtude de seu profundo respeito pelo trabalhador, tomou as providências para enviar Sansão ao hospital veterinário na cidade de Willingdon para tratamento especializado. Pelos dois dias seguintes, Sansão permanece descansando em seu estábulo. Benjamim e Cata-Vento permanecem ao seu lado após o expediente, espantando as moscas e cuidando do amigo.
O colapso físico de Sansão simboliza o esgotamento total da classe operária após anos de exploração impiedosa. Sob a ótica do totalitarismo utilitarista, o trabalhador perde o seu valor intrínseco; ele é encarado apenas como uma máquina de produção. Uma vez quebrada e incapaz de gerar riqueza, a máquina torna-se um peso para o Estado. A atitude de Garganta ao encontrar Sansão caído expõe a falsidade da liderança estatal. A suposta consternação e as promessas de tratamento médico mascaram um pragmatismo frio, no qual as providências tomadas visam apenas solucionar, da forma mais lucrativa possível, o problema logístico de se livrar de um cidadão agora inútil.
A Chegada da Van e o Desespero dos Animais
No meio-dia em que o transporte chega à granja, a maioria dos animais está trabalhando sob a supervisão dos porcos, restando apenas Benjamim para testemunhar o evento. Benjamim galopa em direção aos outros animais, gritando de forma inédita e instigando-os a retornar imediatamente ao pátio. Os animais reúnem-se ao redor da van puxada por cavalos, conduzida por um homem de aparência astuta. Benjamim lê em voz alta a inscrição pintada na lateral do veículo: “Alfred Simmonds, Matador de Cavalos e Fabricante de Cola”. A multidão entra em pânico absoluto, compreendendo que Sansão está sendo levado para o abatedouro, e gritam implorando para que ele saia. De dentro da van, ouve-se o som de coices desesperados. Sansão tenta quebrar a estrutura de madeira da van para escapar, porém as suas forças estão esgotadas e os seus cascos não têm mais o vigor necessário. O barulho diminui gradativamente até cessar por completo, e o veículo desaparece na estrada.
O envio de Sansão ao abatedouro é o clímax trágico e a ruptura moral absoluta da obra. Representa a traição final e irreparável dos ideais revolucionários: o governo capitaliza financeiramente sobre o corpo físico de seu trabalhador mais leal, vendendo-o como matéria-prima (cola e osso) no instante em que sua força de trabalho se extingue. O pânico do burro Benjamim marca o momento em que a classe intelectual, que historicamente se manteve omissa por cinismo ou autopreservação, tenta finalmente intervir. Contudo, a sua ação é tardia. O desespero dos animais aglomerados em torno da van fechada ilustra a aterradora impotência de uma população desarmada e sem instrução contra o implacável aparato de execução do Estado.
A Explicação Oficial, o Luto e o Banquete
Três dias após a partida da van, Garganta anuncia oficialmente que Sansão faleceu de forma pacífica no hospital de Willingdon, mesmo tendo recebido os melhores cuidados médicos. Afirma ter estado ao lado do leito de morte de Sansão até o seu último suspiro e refuta categoricamente o que ele classifica como um “boato maldoso” a respeito do matadouro. A explicação oficial apresentada aos animais é a de que a van pertencera anteriormente ao matador de cavalos, mas fora comprada recentemente pelo veterinário de Willingdon, que ainda não tivera tempo hábil para apagar ou pintar um novo nome por cima da inscrição. Ao ouvirem a justificativa, o alívio toma conta dos animais. No domingo seguinte, Napoleão aparece e faz um discurso em homenagem à vida e ao trabalho do falecido. Ele instrui os animais a adotarem como próprias as duas máximas de Sansão: “Trabalharei mais” e “O camarada Napoleão tem sempre razão”. É anunciado um banquete memorial para os porcos, a ser realizado no dia de um feriado instituído. No dia do banquete, uma caixa de madeira é entregue na casa sede. À noite, há grande barulho e cantorias vindas da casa, e descobre-se que os porcos haviam adquirido dinheiro suficiente para comprar uma caixa de uísque.
A facilidade com que Garganta apaga o horror da van do matadouro comprova o sucesso da destruição cognitiva das massas. O Estado domina a “verdade” não por meio da lógica, mas através da intimidação contínua e do desejo desesperado dos cidadãos oprimidos de se agarrarem a mentiras confortáveis para suportarem o luto. Napoleão usurpa cinicamente a morte de Sansão para reforçar a própria tirania, utilizando a lealdade inquestionável do trabalhador morto como uma poderosa ferramenta de propaganda para cobrar ainda mais submissão e trabalho dos animais sobreviventes. O clímax macabro encerra-se com o banquete. A aquisição da caixa de uísque, financiada diretamente pelo dinheiro manchado de sangue da venda de Sansão, demonstra o grau máximo de corrupção. Ocorre um canibalismo metafórico: a elite governante consome, de forma literal, a vida, os ossos e a devoção de sua classe trabalhadora para financiar e embriagar a sua própria decadência moral.

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