RESUMO
A Passagem do Tempo e a Nova Realidade da Granja
Muitos anos se passam, e o tempo leva à morte quase todos os animais que participaram da Rebelião original, restando apenas Cata-Vento, Benjamim, Moisés (o corvo) e alguns dos porcos. O antigo proprietário, o Sr. Jones, falece num lar para alcoólatras em outra região. A população da granja aumenta com o nascimento de novas gerações e a compra de animais de fora. Para esses novos habitantes, a Rebelião é apenas uma tradição oral incerta e distante. A propriedade expande-se territorialmente através da aquisição de dois campos pertencentes ao Sr. Pilkington.
ANÁLISE
A passagem do tempo atua como o maior aliado do totalitarismo. Ao eliminar fisicamente a geração que participou da Rebelião, o regime de Napoleão garante que não haja testemunhas oculares do passado. A história deixa de ser um conjunto de fatos vividos e passa a ser apenas o que o Estado determina que seja. A morte do Sr. Jones num lar para alcoólatras, longe dali, simboliza que a figura do antigo opressor se tornou irrelevante. O regime suíno não precisa mais da ameaça de Jones para se sustentar; a tirania institucionalizou-se e tornou-se autossuficiente. Para as novas gerações de animais, a Revolução não é uma experiência de libertação, mas uma “tradição oral” mítica. Esse distanciamento permite que a liderança manipule a narrativa de origem da fazenda sem enfrentar contestações lógicas ou memórias divergentes.
A Conclusão do Moinho e a Rotina de Trabalho
O moinho de vento é finalmente concluído, porém não é utilizado para gerar energia elétrica ou proporcionar o conforto prometido anteriormente (como uma semana de trabalho de três dias). A estrutura é utilizada unicamente para moer grãos, gerando lucro expressivo de capital para a granja. Os animais são imediatamente incumbidos de construir um segundo moinho de vento. Os porcos e os cães reproduzem-se em grande quantidade. Eles não realizam qualquer tipo de trabalho braçal ou produtivo no campo, dedicando-se exclusivamente ao que denominam “burocracia” (preenchimento de relatórios e arquivos que acabam sendo queimados na fornalha). Os demais animais continuam a trabalhar exaustivamente, enfrentando fome e frio, embora mantenham o orgulho de viverem na única fazenda do país que é propriedade de animais e governada por eles mesmos.
O moinho de vento, originalmente idealizado (por Bola-de-Neve/Trotsky) como um instrumento de emancipação que traria energia elétrica, conforto e menos horas de trabalho, é convertido num motor de acumulação de capital. A tecnologia, que deveria libertar a classe trabalhadora, é usada para explorá-la de forma ainda mais eficiente. A proliferação dos porcos e cães, que não produzem nenhum alimento, representa a formação de uma gigantesca e parasitária burocracia estatal (uma sátira direta à Nomenklatura soviética). O trabalho dos porcos preenchendo arquivos e relatórios que são imediatamente queimados ilustra a inutilidade prática da burocracia autoritária. O sistema exige a exaustão dos trabalhadores de base para sustentar o luxo de uma elite que justifica o seu não-trabalho através de jargões administrativos.
O Isolamento e Treinamento das Ovelhas
No início do verão, o porco Garganta leva todas as ovelhas para um terreno baldio, distante dos outros, sob o pretexto de ensinar-lhes uma nova canção. As ovelhas permanecem completamente isoladas do restante da fazenda durante uma semana inteira.
A atitude de Garganta de afastar as ovelhas (que representam as massas acríticas e sem instrução) evidencia uma tática clássica de controle mental. Ao isolá-las, o Estado garante que a nova doutrinação seja repetida à exaustão, sem a interferência da realidade do resto da fazenda. O isolamento das ovelhas não é acidental; é um preparativo militar. O regime sabe que a iminente quebra do mandamento mais sagrado (andar sobre duas pernas) causará choque, e precisa de uma barreira de ruído pronta para abafar qualquer possível levante ou murmúrio de dissidência.
A Transformação Física dos Porcos
Logo após o retorno das ovelhas, a égua Cata-Vento emite um relincho aterrorizado, atraindo todos os animais para o pátio. Os animais deparam-se com Garganta caminhando ereto sobre as patas traseiras. Em seguida, surge do interior da casa-grande uma longa fila de porcos andando sobre duas pernas. Por fim, Napoleão aparece em postura ereta, segurando um chicote na trota. Neste exato instante, quando os animais cogitam protestar pelo choque da cena, as ovelhas começam a balir incessantemente um novo e ensaiado lema: “Quatro pernas bom, duas pernas melhor!”, silenciando qualquer manifestação.
O ato dos porcos caminharem sobre duas pernas é a profanação máxima do Animalismo. A regra “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” era a essência da identidade revolucionária. Ao adotar a postura física da humanidade, os porcos abandonam qualquer disfarce de solidariedade com os outros animais. Napoleão emergindo com um chicote na pata é a prova visual de que o ciclo de opressão está completo. O chicote, símbolo do terror infligido pelo Sr. Jones, agora é empunhado pelo “camarada”. O balido de “Quatro pernas bom, duas pernas melhor!” demonstra a destruição do pensamento crítico. A linguagem é pervertida para significar exatamente o seu oposto (semelhante ao conceito de Novilíngua em “1984”). As ovelhas tornam-se a arma de censura sonora do Estado.
O Apagamento dos Mandamentos e a Adoção de Hábitos Humanos
Cata-Vento e Benjamim dirigem-se à parede do grande celeiro onde os Sete Mandamentos haviam sido escritos outrora. A pedido de Cata-Vento, Benjamim lê o que resta na parede: todos os mandamentos anteriores foram apagados, restando no local apenas uma única máxima: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”. Após esse dia, todos os porcos que supervisionam a granja passam a carregar chicotes em suas mãos. Os porcos adquirem um rádio, instalam um aparelho de telefone na casa, assinam publicações impressas e começam a vestir as roupas que pertenciam ao Sr. Jones e à sua esposa.
O lema “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros” é, sem dúvida, a frase mais famosa da obra. Ela encapsula a loucura lógica e a hipocrisia inerente aos regimes totalitários de esquerda ou direita. A igualdade é mantida como um verniz retórico, enquanto a desigualdade extrema é justificada por lei. A adoção de roupas, rádios, assinaturas de revistas e a instalação de telefones mostram que os porcos não apenas se tornaram humanos moralmente, mas abraçaram os hábitos da burguesia e do capitalismo aristocrático. A revolução proletária dos animais transformou os líderes exatamente naquilo que eles juraram destruir.
A Reunião na Casa-Grande e o Encerramento
Uma delegação de fazendeiros humanos da vizinhança é convidada a inspecionar a granja e a participar de um banquete na casa-grande com a liderança dos porcos. Os animais comuns da fazenda, atraídos pelas vozes e pelo barulho, esgueiram-se até as janelas da casa e observam o jantar. O Sr. Pilkington realiza um discurso elogiando as práticas de Napoleão, destacando o fato de que a liderança suína faz com que os animais inferiores da granja trabalhem mais e recebam menos ração do que quaisquer outros animais do condado. Napoleão profere um discurso de retribuição anunciando uma série de mudanças oficiais na rotina da fazenda:
A proibição do uso do termo “Camarada” entre os animais;
O fim do costume de marchar perante o crânio enterrado do Velho Major;
A remoção do chifre e do casco branco da bandeira, que passaria a ser integralmente verde.
Napoleão declara também que a propriedade abandonará o título “Granja dos Bichos” e retomará, oficialmente, o seu nome original: “Granja do Solar”. O evento culmina de forma caótica numa violenta e ruidosa discussão durante uma partida de baralho, desencadeada porque tanto Napoleão quanto Pilkington jogam simultaneamente um Ás de Espadas na mesa. Os animais do lado de fora olham dos rostos dos porcos para os rostos dos homens, e dos homens novamente para os porcos, percebendo com perplexidade que já se tornou impossível distinguir uns dos outros.
O banquete entre porcos e humanos alegoriza as conferências históricas (como a Conferência de Teerã) onde líderes soviéticos (Stalin) e líderes capitalistas ocidentais se reuniram amigavelmente para dividir esferas de poder. A frase do Sr. Pilkington — comparando os “animais inferiores” da granja às “classes inferiores” dos humanos — revela a tese central de Orwell: sob a ótica da opressão, o capitalismo ocidental e o comunismo soviético operavam da mesma forma, sugando a força do proletariado. A abolição da palavra “Camarada”, a alteração da bandeira para um verde opaco (sem a foice e o martelo animais) e, finalmente, a devolução do nome “Granja do Solar” representam a anulação oficial de todos os resquícios da Revolução. A incapacidade dos animais de distinguir os porcos dos homens através da janela consagra a Teoria do Círculo Fechado. A revolução, que partiu do ponto A para derrubar a tirania, percorreu um círculo perfeito de 360 graus para retornar exatamente ao ponto A, substituindo apenas os nomes e os rostos dos opressores, mas mantendo a estrutura de sofrimento intacta.

Guias de estudos literários para todos os tipos de leitores.
© 2026 All Rights Reserved.