A Revolução dos Bichos: Capítulo 7

Resumo & Análise

RESUMO

O Inverno Rigoroso e a Reconstrução do Moinho
Os animais enfrentam um inverno brutalmente rigoroso e trabalham arduamente na reconstrução do moinho de vento. A reconstrução passa a ser executada com paredes muito mais grossas (com quase um metro de espessura) em relação ao projeto original, exigindo um esforço ainda maior dos animais na quebra e transporte das pedras. A comida torna-se progressivamente mais escassa; a ração de milho é reduzida drasticamente e as batatas estragam devido ao frio. A fome torna-se uma ameaça e uma constante na rotina da fazenda.

ANÁLISE

Este segmento espelha as severas dificuldades enfrentadas pela União Soviética durante a implementação dos Planos Quinquenais de Joseph Stalin. A decisão de reconstruir o moinho com paredes duas vezes mais grossas representa as metas irrealistas de engenharia e produção impostas à classe trabalhadora, que operava sem a infraestrutura ou o suporte técnico adequados. A narrativa demonstra como regimes totalitários utilizam a retórica do “sacrifício necessário” para justificar a exaustão física extrema da população. O sofrimento dos animais sob o clima brutal evidencia que, na busca pelo progresso material do Estado, o bem-estar do trabalhador individual é completamente instrumentalizado e anulado.

A Farsa para o Mundo Exterior e a Ocultação da Fome
Os seres humanos ao redor começam a inventar e a espalhar boatos de que os animais estão morrendo de fome e doenças, e de que a granja recorre ao canibalismo e ao infanticídio. Napoleão toma medidas estritas para ocultar a realidade da escassez do mundo exterior. Utilizando-se do Sr. Whymper (o intermediário humano), Napoleão cria uma falsa ilusão de fartura: ordena que as caixas de armazenamento de alimentos sejam preenchidas quase totalmente com areia, sendo cobertas apenas superficialmente com os grãos e cereais que ainda restam. Ao ver os depósitos aparentemente repletos, Whymper reporta aos humanos que não há crise alimentar na granja.

O episódio reflete a ocultação sistemática da fome soviética de 1932-1933, particularmente o Holodomor na Ucrânia. Assim como Napoleão esconde a escassez enchendo as caixas com areia, o governo stalinista mascarou a morte de milhões de camponeses através de relatórios econômicos falsificados. A figura do Sr. Whymper ilustra os intelectuais, diplomatas e jornalistas ocidentais (como Walter Duranty) que visitaram a URSS sob forte vigilância e controle estatal. Sendo deliberadamente enganados (ou optando pela conveniência política), esses observadores externos relataram ao mundo que os rumores de crise eram propaganda anticomunista, legitimando internacionalmente a farsa do regime.

O Contrato dos Ovos e a Rebelião das Galinhas
Napoleão informa, através de Garganta, que firmou um contrato exigindo a entrega de quatrocentos ovos por semana para obter recursos de modo a comprar comida e manter a granja até o verão. As galinhas revoltam-se contra a exigência, argumentando que confiscar seus ovos naquela época do ano é um assassinato, pois já preparavam as chocadas para a primavera. Lideradas por três jovens frangas, as galinhas realizam um motim: voam até as vigas do teto do celeiro e botam os ovos lá de cima, fazendo-os espatifar no chão. Napoleão reage com brutalidade absoluta: corta totalmente a ração das galinhas e decreta pena de morte imediata para qualquer animal que lhes dê um grão de alimento. Após cinco dias de fome absoluta, as galinhas capitulam e retornam aos ninhos. Nove galinhas morrem durante o evento, sendo seus óbitos oficialmente justificados perante os animais como mortes causadas por “coccidiose”.

A revolta das galinhas contra o confisco de seus ovos simboliza a violenta resistência dos camponeses (frequentemente associados aos kulaks) contra a política de coletivização forçada das terras e bens agrícolas na União Soviética. A destruição dos próprios ovos pelas galinhas é um paralelo direto com a queima de colheitas e o abate de gado realizados pelos camponeses que se recusavam a entregar sua produção ao Estado. O uso do racionamento e da privação absoluta de comida como método de punição exemplifica a fome como arma política. A reescrita oficial da causa da morte das nove galinhas para “coccidiose” analisa o controle totalitário da informação médica e biológica: o Estado não apenas elimina os dissidentes pela fome, mas apaga a violência do registro oficial, transformando o assassinato político em fatalidade natural.

A Campanha Contra Bola-de-Neve e a Reescrita da História
Passa a circular a notícia de que Bola-de-Neve está escondido numa das fazendas vizinhas (Foxwood ou Pinchfield) e de que realiza invasões noturnas na Granja dos Bichos para sabotar o trabalho. Qualquer infortúnio na fazenda (janelas quebradas, chaves sumidas, leite derramado, canteiros pisoteados) passa a ser automaticamente atribuído a atos de sabotagem de Bola-de-Neve. Garganta convoca uma reunião e anuncia a descoberta de “documentos secretos”, os quais provariam que Bola-de-Neve era um agente infiltrado do Sr. Jones desde o primeiro dia, e que o seu objetivo na Batalha do Estábulo era causar a derrota dos animais. O cavalo Sansão demonstra relutância em acreditar na traição na Batalha do Estábulo, recordando como Bola-de-Neve lutou bravamente e foi ferido, mas Garganta insiste veementemente na nova versão histórica. Sansão eventualmente abandona as suspeitas e submete-se, guiado pela sua máxima: “Se o Camarada Napoleão diz, deve ser verdade”.

A onipresença malevolente atribuída a Bola-de-Neve reflete a demonização de Leon Trotsky pelo regime stalinista. Totalitarismos necessitam de um “Inimigo Público Número Um” invisível e onipresente para justificar as falhas de sua própria gestão administrativa. Se uma chave some ou o leite derrama, a culpa é atribuída ao traidor, blindando a liderança de qualquer incompetência. A reescrita da Batalha do Estábulo demonstra o conceito de revisionismo histórico. Através da retórica persuasiva de Garganta, a verdade factual (os olhos e as memórias dos animais) é subjugada pelos “documentos secretos” criados pelo Estado. A capitulação psicológica de Sansão (“Se o Camarada Napoleão diz, deve ser verdade”) ilustra o ápice do gaslighting estatal, onde o indivíduo abre mão da própria sanidade e percepção da realidade em prol da lealdade cega ao líder supremamente infalível.

Os Expurgos e os Julgamentos Sangrentos
Quatro dias depois, Napoleão convoca uma reunião geral no pátio, comparecendo ladeado pelos seus nove cães ferozes. Ao emitir um guincho agudo, os cães atacam e arrastam quatro porcos pelo orelha (os mesmos porcos que haviam protestado quando Napoleão aboliu os debates dominicais). Os cães também tentam atacar Sansão, que se defende prendendo um dos cães debaixo de seu enorme casco até que Napoleão mande soltá-lo. Napoleão exige que os quatro porcos confessem os seus crimes. Eles afirmam sob coação ter mantido contato constante com Bola-de-Neve, colaborado na destruição do primeiro moinho e sabido que ele era agente de Jones. Assim que concluem a confissão, os cães dilaceram as gargantas dos porcos. Segue-se uma cadeia de confissões: três galinhas confessam que Bola-de-Neve lhes apareceu em sonho ordenando rebeldia; um ganso confessa ter escondido espigas de milho durante a colheita; uma ovelha confessa ter urinado no bebedouro; duas outras ovelhas confessam ter assassinado um carneiro idoso. Todos os animais que confessam são sumariamente executados no local. O pátio fica com uma pilha de cadáveres aos pés de Napoleão e o ar fica impregnado com o cheiro de sangue.

Este ponto representa o ápice alegórico do Grande Expurgo stalinista (1936-1938), marcado pelos Julgamentos de Moscou. As confissões absurdas e voluntárias dos porcos e demais animais espelham as confissões extraídas sob tortura psicológica, ameaças à família e coerção física dos antigos revolucionários bolcheviques (a Velha Guarda). O massacre público no pátio da granja serve para institucionalizar o medo. A violência deixa de ser uma resposta a ameaças externas (como Jones) e passa a ser direcionada contra os próprios membros da sociedade. O cheiro de sangue destrói o último resquício do pacto social do Animalismo, estabelecendo de forma definitiva que a sobrevivência na fazenda depende da submissão absoluta e não mais do mérito revolucionário.

O Luto dos Sobreviventes e a Proibição de “Bichos da Inglaterra”
Os animais que não foram executados (exceto os porcos e os cães) reúnem-se na colina perto do moinho inacabado, apavorados, amontoados e em choque profundo tanto com a traição dos mortos quanto com o massacre a que acabaram de assistir. Cata-Vento olha para a fazenda com os olhos cheios de lágrimas, pensando que aquelas cenas de terror eram o extremo oposto da sociedade igualitária e pacífica idealizada pelo Velho Major, embora conclua que, ainda assim, viver sem os humanos seja a melhor alternativa. Os animais, impulsionados pela tristeza, começam a cantar “Bichos da Inglaterra” de forma lenta, unida e melancólica, repetindo a canção três vezes. Garganta aparece acompanhado por dois cães e anuncia que, por decreto especial do Camarada Napoleão, a canção “Bichos da Inglaterra” foi permanentemente abolida, tornando o seu canto um ato proibido. A justificativa apresentada por Garganta é que a música era o hino da Rebelião, e, com as execuções daquela tarde, a Rebelião estava oficialmente terminada, não havendo mais necessidade do canto. O hino original é imediatamente substituído por um poema curto composto pelo porco Mínimo (que começa com “Granja dos Bichos, Granja dos Bichos, / Jamais por mim sofrerás qualquer dano!”), que passa a ser a única música permitida aos domingos.

O choro coletivo na colina sinaliza a perda definitiva da inocência e a constatação trágica de que a tirania foi restabelecida sob uma nova roupagem. Os animais percebem que a sociedade que construíram transformou-se no oposto exato das promessas igualitárias do Velho Major. A abolição do hino “Bichos da Inglaterra” por Napoleão correlaciona-se historicamente com a decisão de Stalin de substituir A Internacional por um hino nacionalista soviético em 1944. A análise literária revela que hinos revolucionários que clamam pela liberdade e pela derrubada de tiranos tornam-se perigosos para a própria elite que ascendeu ao poder. O poema conformista de Mínimo, que substitui o hino original, consolida a transição ideológica da fazenda: o foco deixa de ser a emancipação global dos oprimidos e passa a ser a obediência e a exaltação do Estado nacional.

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