RESUMO
A Fuga de Mimosa (Mollie)
Com a chegada do inverno, a égua Mimosa torna-se cada vez mais ausente, chegando atrasada ao trabalho sob queixas de misteriosas dores, embora seu apetite permaneça excelente. Cata-Vento (Clover) confronta Mimosa, relatando tê-la visto na divisória da fazenda Foxwood conversando com um dos empregados do Sr. Pilkington, que lhe acariciava o focinho. Mimosa nega veementemente a acusação, mas Cata-Vento vai até a baia da égua e encontra torrões de açúcar e fitas de várias cores escondidos sob a palha. Três dias depois, Mimosa desaparece da Granja dos Bichos. Pombos relatam tê-la visto atrelada a uma elegante charrete fora de uma taberna em Willingdon, usando uma fita vermelha na crina e comendo açúcar oferecido por um humano. Ela nunca mais é mencionada na fazenda.
ANÁLISE
A égua Mimosa representa a pequena burguesia, a nobreza exilada e as classes mais abastadas da Rússia pré-revolucionária. O seu desinteresse pelos ideais do Animalismo espelha o descaso daqueles que não desejavam sacrificar o seu conforto em prol da igualdade proletária. A análise evidencia que Mimosa nunca compreendeu ou endossou a revolução. Sua lealdade sempre foi ao sistema que lhe fornecia mimos (açúcar e fitas). A aceitação de carícias de um humano é a representação visual da sua traição de classe. O fato de os outros animais nunca mais mencionarem o seu nome demonstra um mecanismo típico de sociedades totalitárias: o expurgo social e o apagamento da memória daqueles que desertam ou não se alinham à ideologia do Estado.
A Disputa Político-Administrativa
Durante o inverno rigoroso, o trabalho no campo é paralisado, e as reuniões dominicais ocorrem no celeiro para planejar a temporada seguinte. Estabelece-se que os porcos, por serem mais inteligentes, decidirão todas as políticas da fazenda, embora suas decisões devam ser ratificadas pela maioria dos votos. A rivalidade entre Bola-de-Neve e Napoleão atinge o ápice; eles discordam sistematicamente em qualquer ponto de debate. Bola-de-Neve domina as reuniões com seus discursos brilhantes e persuasivos, enquanto Napoleão demonstra maior sucesso em articular apoio nos bastidores. Napoleão passa a utilizar as ovelhas, que começam a balir o lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” incessantemente e em momentos cruciais, interrompendo os discursos de Bola-de-Neve.
O conflito institucionalizado entre Bola-de-Neve e Napoleão cristaliza a rivalidade histórica entre Leon Trotsky e Josef Stalin pelo controle da União Soviética após a morte de Lenin. A análise revela as diferentes abordagens de liderança. Bola-de-Neve acredita no poder da oratória, no engajamento intelectual e na persuasão racional das massas. Napoleão, desprovido de carisma e brilhantismo retórico, opera na política de bastidores, minando o adversário não com argumentos, mas com força bruta e manipulação. O uso contínuo das ovelhas para interromper os discursos de Bola-de-Neve introduz o perigo do populismo. As ovelhas representam o segmento desinformado da sociedade civil, manipulado para repetir cegamente chavões governamentais e asfixiar o diálogo crítico.
O Projeto do Moinho de Vento
Bola-de-Neve elabora o projeto de um moinho de vento para ser erguido na elevação mais alta da fazenda, com o objetivo de gerar energia elétrica. Ele promete que a eletricidade aquecerá as baias no inverno, fornecerá luz e operará máquinas (como serras circulares e ordenhadeiras), reduzindo o trabalho físico dos animais para apenas três dias por semana. Napoleão opõe-se ferozmente ao projeto desde o início, defendendo que a necessidade urgente é o aumento da produção de alimentos, e que trabalhar no moinho causará a morte de todos por inanição. Durante uma visita ao galpão onde Bola-de-Neve desenha meticulosamente os planos no chão, Napoleão observa as marcações em silêncio e, em seguida, levanta a perna, urina sobre o projeto e retira-se sem dizer palavra.
O moinho de vento é a contraparte alegórica aos ambiciosos projetos de industrialização de Trotsky e aos subsequentes Planos Quinquenais de Stalin. Representa a promessa de aliar progresso tecnológico a um futuro de trabalho reduzido e lazer. A atitude de Napoleão ao urinar nos projetos de Bola-de-Neve ultrapassa a simples discordância política. É uma demonstração de desprezo visceral e dominação territorial, evidenciando precocemente que a sua liderança não se pautará pelo respeito, mas pela humilhação de seus adversários.
A Divisão da Fazenda e a Estratégia de Defesa
A Granja dos Bichos divide-se em duas facções políticas claras, representadas pelos slogans: “Vote em Bola-de-Neve e na semana de três dias” e “Vote em Napoleão e na manjedoura cheia”. O burro Benjamim é o único animal que não adere a nenhum dos lados, afirmando que, com moinho ou sem moinho, a vida continuará sendo tão difícil quanto sempre foi. Outro conflito emerge em relação à defesa militar da fazenda: Napoleão argumenta que os animais devem adquirir armas de fogo e treinar seu uso, enquanto Bola-de-Neve defende o envio de mais pombos para incitar rebeliões gerais nas fazendas vizinhas.
O debate sobre a defesa militar traduz uma ruptura profunda na teoria socialista. Bola-de-Neve defende que a segurança reside na “Revolução Permanente” — espalhar o ideal para outras fazendas (países), enfraquecendo o capitalismo global. Napoleão defende o fortalecimento interno e o monopólio bélico, espelhando a doutrina stalinista do “Socialismo em um só país”. O burro Benjamim encarna os intelectuais céticos que, possuindo uma profunda compreensão da inércia histórica, sabem que o poder invariavelmente oprime os mais fracos. No entanto, sua passividade moral permite que a tirania avance sem oposição.
A Expulsão Violenta de Bola-de-Neve
O dia da votação final sobre a construção do moinho chega. Após Napoleão falar brevemente contra a obra, Bola-de-Neve faz um discurso inflamado e visionário que conquista a totalidade dos presentes. Percebendo a derrota iminente, Napoleão levanta-se, lança um olhar oblíquo a Bola-de-Neve e emite um guincho estridente e jamais ouvido antes. Nove enormes e ferozes cães, usando coleiras cravejadas de latão, invadem o celeiro rosnando. Trata-se dos filhotes que Napoleão havia recolhido meses antes para “educação privada”. Os cães atacam Bola-de-Neve, que foge desesperadamente. A perseguição estende-se até as pastagens e termina quando Bola-de-Neve consegue passar por um buraco na cerca de espinhos, sendo expulso definitivamente da fazenda.
A cena marca o fim da efêmera democracia na Granja dos Bichos, correspondendo à expulsão de Trotsky do Partido Comunista e seu posterior exílio (1927-1929). O brilhantismo intelectual e o apoio popular de Bola-de-Neve revelam-se totalmente inúteis diante da força bruta institucionalizada. Os cães, criados no isolamento, não são mais animais comuns; eles representam o aparelho de Estado, especificamente a polícia secreta militarizada (a futura KGB). Este evento decreta que a base do poder na fazenda deixou de ser a persuasão coletiva e passou a ser o terror.
A Consolidação do Poder Autoritário
Após o ataque, Napoleão, rodeado pelos cães, sobe ao estrado que outrora pertencia ao Velho Major e anuncia o cancelamento definitivo dos Debates de Domingo. Todas as questões futuras sobre o funcionamento da fazenda passarão a ser decididas a portas fechadas por um comitê especial de porcos, presidido pelo próprio Napoleão. Os animais ainda se congregarão aos domingos, mas apenas para hastear a bandeira, cantar “Bichos da Inglaterra” e receber suas ordens semanais de trabalho. Quatro jovens porcos tentam protestar contra a abolição das reuniões, mas são instantaneamente silenciados pelos rosnados ameaçadores dos cães e pelos balidos sincronizados das ovelhas.
O cancelamento dos Debates de Domingo é a castração política definitiva da classe trabalhadora. As decisões em um “comitê especial de portas fechadas” eliminam qualquer pretensão de transparência e destroem o pilar do Animalismo que determinava que “todos os animais são iguais”. Quando os quatro porcos jovens tentam argumentar contra o golpe de Estado, a rápida intimidação promovida pelos rosnados dos cães e pelos balidos das ovelhas ilustra a impossibilidade de dissidência interna sob um regime totalitário. O medo e o ruído esmagam a racionalidade.
A Máquina de Propaganda e o Novo Ritual
Garganta é encarregado de circular pela fazenda para apaziguar os animais e explicar as novas diretrizes. Ele argumenta que Napoleão assumiu a liderança como um sacrifício pessoal para proteger a fazenda de decisões equivocadas, rotulando publicamente Bola-de-Neve como criminoso e minimizando sua bravura na Batalha do Estábulo. O cavalo Sansão aceita a argumentação de Garganta e adota uma nova máxima fundamental: “Napoleão tem sempre razão”, que se junta ao seu lema anterior, “Trabalharei mais”. O crânio limpo do Velho Major é desenterrado do pomar e fixado em um toco de árvore ao lado do mastro da bandeira. Todos os animais agora são obrigados a marchar em reverência diante do crânio antes de entrar no celeiro.
O porco Garganta atua como o Ministério da Informação (ou a imprensa censurada, como o jornal Pravda). Sua análise é um estudo sobre gaslighting coletivo. Ele reescreve ativamente o passado, convertendo o herói (Bola-de-Neve) em vilão e traidor, justificando as ações inconstitucionais de Napoleão como “sacrifícios”. A resposta do cavalo Sansão — “Napoleão tem sempre razão” — exemplifica o triunfo trágico e fatal da propaganda sobre a força vital da classe trabalhadora, marcando o estabelecimento do culto à personalidade do líder supremo. O desenterro e a reverência obrigatória ao crânio do Velho Major é um paralelo mórbido com a embalsamação do corpo de Lenin na Praça Vermelha. A elite corrompe os ideais originais do pensador, mas exige que a população reverencie os seus restos mortais para emprestar legitimidade ao regime atual.
A Apropriação do Moinho
No terceiro domingo após a expulsão, Napoleão anuncia subitamente que o moinho de vento será, de fato, construído. A construção exigirá um trabalho muito mais árduo, e ele avisa que as rações dos animais possivelmente precisarão ser reduzidas. Garganta, escoltado por três cães ferozes, explica em particular aos animais confusos que o projeto do moinho nunca foi de Bola-de-Neve, e sim uma criação original de Napoleão que havia sido roubada. Segundo Garganta, a aparente oposição de Napoleão ao projeto fora apenas uma “tática” engenhosa para expurgar o criminoso Bola-de-Neve sem levantar suspeitas, explicação que os animais aceitam intimidados pela presença ostensiva dos cães.
A decisão imediata de construir o moinho logo após a expulsão de seu criador comprova o oportunismo parasita do novo regime (da mesma forma que Stalin se apropriou dos projetos industriais depois de marginalizar seus idealizadores). A explicação delirante de Garganta, alegando que o projeto era secretamente de Napoleão e que a sua oposição fora “uma tática genial”, introduz a exigência de que os cidadãos acreditem em duas noções diretamente contraditórias ao mesmo tempo, um prenúncio do que seria conhecido como o duplipensar. A aceitação da mentira escancarada por parte dos animais só ocorre devido à escolta dos três cães ferozes ao lado de Garganta. A força deforma a realidade, estabelecendo que a “verdade” agora é tudo aquilo que o Estado ordena e pode defender sob a mira da violência.

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