A Revolução dos Bichos: Capítulo 8

Resumo & Análise

RESUMO

A Adulteração dos Mandamentos e a Rotina de Trabalho
Dias após as execuções, alguns animais relembram o Sexto Mandamento e pedem a Muriel que o leia na parede do celeiro. Descobrem que a inscrição diz: “Nenhum animal matará outro animal sem motivo”. Os animais assumem que suas memórias estavam falhas quanto às duas últimas palavras. O trabalho na fazenda torna-se ainda mais exaustivo e rigoroso. Os animais trabalham mais duro do que no ano anterior, comendo a mesma quantidade de ração ou até menos do que nos tempos de Jones. Aos domingos, Garganta lê longas listas de estatísticas, alegando provar que a produção de alimentos aumentou em duzentos, trezentos ou quinhentos por cento. Os animais não têm meios para contestar, pois a memória sobre as condições antes da Rebelião torna-se cada vez mais turva.

ANÁLISE

A alteração do Sexto Mandamento para “Nenhum animal matará outro animal sem motivo” ilustra a institucionalização do revisionismo histórico. O regime não quebra a lei; ele a reescreve para legalizar a atrocidade, utilizando a fragilidade da memória da classe trabalhadora (os animais comuns) como arma de opressão. Este fenômeno é o que na teoria política se chama de gaslighting estatal. Paralelamente, o trabalho exaustivo mascarado pelas estatísticas lidas por Garganta representa a manipulação de dados econômicos. A obra faz um paralelo direto com os Planos Quinquenais da União Soviética, onde o governo divulgava números astronômicos de crescimento na produção agrícola e industrial, enquanto a população sofria com a escassez e a fome. O número substitui a realidade tangível.

A Exaltação e Reclusão de Napoleão
Napoleão passa a raramente aparecer em público, permanecendo quase exclusivamente dentro da casa-grande, com as portas guardadas por cães ferozes. Quando sai, é escoltado e precedido por um galo negro, que atua como trompetista antes de seus discursos. O líder deixa de ser chamado simplesmente de “Napoleão” e adota títulos formais e pomposos, como “Nosso Líder, Camarada Napoleão”, “Pai de Todos os Bichos” e “Terror da Humanidade”. Todo evento positivo ou sucesso na fazenda (desde uma galinha que bota mais ovos até a qualidade da água) passa a ser atribuído direta e publicamente à liderança de Napoleão. O porco Mínimo compõe um longo poema em homenagem a Napoleão. O texto é inscrito na parede do celeiro, do lado oposto ao dos Sete Mandamentos, e é encimado por um retrato do líder pintado de perfil por Garganta.

A reclusão de Napoleão e a adoção de títulos messiânicos e pomposos marcam a transição definitiva da ditadura para a monarquia absolutista e o culto à personalidade, espelhando a figura de Josef Stalin (e tiranos em geral). O líder deixa de ser um “camarada” para se tornar um deus onipresente, a quem todo sucesso é creditado — desde a vitória em batalhas até o sabor da água. A arte, representada pelo poema bajulador de Mínimo e pelo retrato pintado na parede do celeiro, é destituída de sua função libertadora e passa a servir exclusivamente como propaganda de Estado. A igualdade, pilar fundador do Animalismo, é completamente aniquilada no plano simbólico.

As Negociações da Madeira e os Rumores Externos
Napoleão realiza negociações constantes para a venda de uma grande pilha de madeira acumulada na fazenda. Os potenciais compradores são o Sr. Pilkington (da fazenda Foxwood) e o Sr. Frederick (da fazenda Pinchfield). Simultaneamente, circulam boatos de que o Sr. Frederick e seus homens planejam atacar a Granja dos Bichos para derrubar o moinho, e de que ele pratica torturas atrozes contra os animais de sua propriedade. Devido a esses rumores, Napoleão adota uma postura anti-Frederick. A fazenda adota o lema “Morte a Frederick” e finge alinhar-se com Pilkington.

Esta seção analisa a natureza volátil e pragmática da diplomacia totalitária. A oscilação das negociações de Napoleão entre Pilkington (representando os Aliados/Inglaterra) e Frederick (representando a Alemanha Nazista) ilustra a frieza da Realpolitik. Os rumores aterrorizantes espalhados sobre as torturas cometidas por Frederick são utilizados pelo Estado para manipular o sentimento público, criando um nacionalismo reativo e o ódio ao inimigo externo. A verdade sobre as fazendas vizinhas não importa; o que importa é como o medo pode ser canalizado para manter a obediência interna.

A Conclusão do Moinho e a Reviravolta Comercial
No outono, através de um esforço extremo que chega a causar exaustão total na classe trabalhadora, o moinho de vento é finalmente concluído. A estrutura é batizada de “Moinho Napoleão”. Dias depois, Napoleão convoca uma reunião e anuncia uma mudança abrupta: rompe as negociações com Pilkington e decide vender a madeira a Frederick. O lema é imediatamente alterado para “Morte a Pilkington”. Os pombos mensageiros recebem ordens de evitar a fazenda Pinchfield e concentrar a hostilidade em Foxwood. A madeira é transportada rapidamente pelos homens de Frederick. Contudo, três dias depois da transação, descobre-se que Frederick pagou pela madeira utilizando notas bancárias falsas. A madeira havia sido levada de graça. Enfurecido, Napoleão pronuncia a sentença de morte contra Frederick e decreta estado de alerta para um ataque iminente.

A reviravolta abrupta em que Napoleão vende a madeira a Frederick, alterando instantaneamente a propaganda de “Morte a Frederick” para “Morte a Pilkington”, demonstra o controle absoluto do Estado sobre o pensamento das massas, exigindo o que George Orwell chamaria mais tarde de duplipensar. Historicamente, este episódio é uma alegoria direta ao Pacto Molotov-Ribbentrop de 1939 (o pacto de não agressão entre a União Soviética e a Alemanha Nazista). O pagamento com notas falsas por Frederick simboliza a quebra desse pacto (a Operação Barbarossa, quando Hitler invadiu a URSS em 1941), revelando a miopia e a falibilidade do “infalível” Napoleão.

A Batalha do Moinho de Vento
Na manhã seguinte, Frederick e mais de uma dezena de homens armados com espingardas invadem a Granja dos Bichos. Mensageiros enviados a Pilkington com um apelo por ajuda retornam com um pedaço de papel onde está escrito apenas: “Bem feito”. Os homens avançam e concentram-se no moinho. Utilizando um pé-de-cabra, marretas e pólvora, explodem a construção desde a base, destruindo-a completamente. Ao presenciarem o moinho reduzido a pó, os animais são tomados por uma fúria incontrolável e atacam os humanos com extrema violência. Após um combate brutal, os invasores são feridos e obrigados a fugir da propriedade. A vitória é marcada por pesadas baixas: uma vaca, três ovelhas e dois gansos morrem; quase todos os animais ficam feridos, e Sansão tem os cascos estilhaçados e sangra profundamente.

A destruição do moinho (o maior símbolo de esperança, independência e esforço da classe trabalhadora) pelo uso de pólvora humana representa a aniquilação da infraestrutura soviética durante a Segunda Guerra Mundial (a Grande Guerra Patriótica, notavelmente a Batalha de Stalingrado). A batalha que se segue não é vencida por táticas brilhantes da liderança dos porcos, mas pela fúria cega, pelo desespero e pelo sacrifício brutal dos animais comuns. A resposta apática de Pilkington (“Bem feito”) reflete a hesitação e o cinismo das potências ocidentais durante as fases iniciais do conflito europeu.

Celebração e a Descoberta do Uísque
Apesar da exaustão e do desânimo dos animais pela perda do moinho, Garganta declara o evento como uma vitória formidável, justificando que o solo sagrado da fazenda foi defendido com sucesso. Os animais realizam dois dias de intensas celebrações, com cantos, disparos de espingarda, discursos e um funeral solene para os mortos em combate. Napoleão condecora a si mesmo com a “Ordem do Estandarte Verde”. Poucos dias depois da batalha, os porcos encontram um engradado de uísque no porão da casa-grande. Naquela noite, ouve-se um barulho estrondoso e cantorias vindas da casa. Na manhã seguinte, os porcos acordam taciturnos, e Garganta anuncia tragicamente que o Camarada Napoleão está morrendo, supostamente vítima de envenenamento planejado por Bola-de-Neve. Napoleão decreta solenemente, como sua “última vontade”, que o consumo de álcool seja punido com a morte. No entanto, na noite seguinte, Napoleão se recupera plenamente. Dias depois, emite ordens para que o pequeno piquete outrora destinado à aposentadoria dos animais idosos seja arado e semeado com cevada.

A declaração de vitória por Garganta, apesar do massacre e da perda do moinho, é uma necessidade política: ditaduras não podem admitir derrotas que ameacem a moral ou a imagem de invencibilidade do líder. A ironia atinge o seu ápice quando os porcos descobrem o uísque. O consumo de álcool, o tabu supremo estabelecido pelo Velho Major por representar a corrupção e os vícios destrutivos da humanidade, é rapidamente abraçado pela elite. A apropriação do piquete destinado à aposentadoria dos animais idosos para o plantio de cevada é de extrema crueldade simbólica: rouba-se o futuro (o descanso) da classe trabalhadora para financiar o vício (o luxo) dos governantes.

O Incidente Noturno e o Quinto Mandamento
Certa noite, aproximadamente à meia-noite, um grande estrondo acorda os animais. No pátio, sob a parede dos Sete Mandamentos, encontram uma escada quebrada ao meio. Garganta está caído no chão, atordoado, e ao seu lado encontram-se um lampião, um pincel e uma lata de tinta branca tombada. Os cães imediatamente formam um círculo ao redor de Garganta e o escoltam de volta à casa. Os animais comuns não conseguem compreender o evento, à exceção de Benjamim, que balança a cabeça de forma sagaz, mas se recusa a falar. Dias mais tarde, Muriel lê novamente os mandamentos e nota que o Quinto Mandamento está escrito da seguinte forma: “Nenhum animal beberá álcool em excesso”. Os animais, mais uma vez, deduzem que haviam se esquecido das duas últimas palavras da regra original.

O flagrante de Garganta caído ao lado da lata de tinta branca é o momento em que a fraude da reescrita das leis se torna visualmente inegável. No entanto, a recusa dos animais em compreender a cena revela o triunfo sombrio do embotamento intelectual provocado pelo trabalho escravo e pelo medo (com a escolta dos cães ao redor de Garganta). O silêncio do burro Benjamim — o único que entende a farsa — representa a omissão da intelligentsia (a classe intelectual e acadêmica) que, por cinismo ou autopreservação, enxerga a corrupção do regime, mas se recusa a agir para despertar as massas. A modificação do mandamento para “Nenhum animal beberá álcool em excesso” encerra o capítulo consolidando o princípio de que, na Granja dos Bichos, a lei existe apenas para proteger e justificar os privilégios da classe dominante.

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