RESUMO
A Propagação da Rebelião e o Pavor Humano
Todos os dias, Bola-de-Neve e Napoleão enviam revoadas de pombos com a missão de voar até as fazendas vizinhas para espalhar a história da Rebelião e ensinar a melodia de “Bichos da Inglaterra”. O Sr. Jones passa a maior parte do tempo no bar do Leão Vermelho, em Willingdon, lamentando-se sobre a perda de sua propriedade. Os proprietários das fazendas adjacentes — o Sr. Pilkington (da fazenda Foxwood, descuidada e antiquada) e o Sr. Frederick (da fazenda Pinchfield, menor e mais eficiente) — inicialmente zombam da situação, mas logo sentem pavor de que seus próprios animais se rebelem. Eles espalham boatos falsos sobre fome e canibalismo na Granja dos Bichos. Durante aquele ano, uma rebeldia indomável espalha-se pelo condado. Animais de outras fazendas tornam-se intratáveis e a canção “Bichos da Inglaterra” é ouvida por toda parte, enfurecendo os seres humanos.
ANÁLISE
A revoada de pombos enviada por Bola-de-Neve e Napoleão simboliza a Internacional Comunista (Comintern) e a disseminação da propaganda bolchevique após a Revolução Russa de 1917. O objetivo era exportar a revolução para os países vizinhos (a “revolução permanente” defendida por Leon Trótski). Os fazendeiros vizinhos, Pilkington (representando a Inglaterra e os Aliados ocidentais) e Frederick (representando a Alemanha), personificam as potências capitalistas da época. O desprezo inicial que sentem rapidamente se transforma em terror absoluto (o equivalente histórico ao “Perigo Vermelho” ou Red Scare). A disseminação de boatos sobre canibalismo e fome na Granja dos Bichos reflete a propaganda contrarrevolucionária espalhada pelas nações ocidentais para desacreditar o nascente Estado Soviético. A canção “Bichos da Inglaterra” atua como “A Internacional”, um hino viral que desperta a consciência de classe e a insubordinação do proletariado global, mostrando que as ideias são muito mais difíceis de conter do que exércitos.
A Invasão da Granja dos Bichos
No início de outubro, pombos chegam alertando que Jones, acompanhado por seus peões e por meia dúzia de homens de Foxwood e Pinchfield, cruzou a porteira da fazenda. Todos os homens portam porretes, com exceção de Jones, que marcha à frente segurando uma espingarda. A invasão já era esperada. Bola-de-Neve, que havia estudado as campanhas de Júlio César em um livro antigo encontrado na sede, assume o comando da defesa e distribui as posições de cada animal.
A invasão liderada por Jones representa a Guerra Civil Russa (1918-1921) e a intervenção das potências ocidentais que enviaram tropas e recursos para ajudar o Exército Branco (forças anticomunistas e czaristas) a tentar derrubar o novo regime bolchevique. Jones encarna o czar Nicolau II (ou a velha ordem capitalista) tentando recuperar o poder à força. A preparação antecipada de Bola-de-Neve, baseada na leitura das campanhas de Júlio César, consolida a sua representação de Leon Trótski. Assim como Trótski organizou e liderou brilhantemente o Exército Vermelho, Bola-de-Neve utiliza o intelecto, a estratégia e a disciplina militar para defender a revolução contra forças numericamente ou tecnologicamente superiores (os homens armados).
O Confronto: A Batalha do Estábulo
Bola-de-Neve lança a primeira investida com trinta e cinco pombos, que defecam sobre as cabeças dos homens, seguidos pelos gansos, que bicam violentamente as panturrilhas dos invasores. Muriel (a cabra), Benjamin (o burro) e todas as ovelhas atacam com cabeçadas e coices. Os homens, usando botas e porretes, conseguem repelir esta frente. Bola-de-Neve emite um guincho que serve como sinal de retirada. Os animais fogem, atraindo os homens para dentro do pátio e passando-lhes a falsa impressão de vitória. Quando os homens estão no pátio, os cavalos, as vacas e o resto dos porcos, que estavam escondidos no estábulo, surgem repentinamente cortando a retaguarda dos invasores. Bola-de-Neve investe diretamente contra Jones. O fazendeiro dispara a espingarda, matando uma ovelha e ferindo as costas de Bola-de-Neve com chumbo. Apesar do ferimento, o porco derruba Jones em um monte de esterco. O cavalo Sansão ataca um cavalariço de Foxwood, atingindo-o no crânio com o casco ferrado. O rapaz cai imóvel no chão, aparentemente morto. Aterrorizados com a violência dos animais, os homens fogem em desespero pela mesma rota por onde entraram, sendo perseguidos e escoiceados até o limite da propriedade. O cavalariço, que estava apenas atordoado, recobra a consciência e também foge.
A vitória dos animais não se dá pela força bruta desorganizada, mas pela estratégia militar de Bola-de-Neve (o recuo falso e a emboscada). No entanto, a execução física da vitória depende de Sansão. O cavalo simboliza o proletariado e o campesinato russo: possui uma força aterradora, é quem mais sofre no combate direto e é a verdadeira engrenagem que sustenta a revolução. O contraste entre a reação de Sansão e a de Bola-de-Neve diante da suposta morte do cavalariço é um dos pontos filosóficos mais profundos do capítulo. O remorso de Sansão (“Não tenho o desejo de tirar a vida de ninguém, nem mesmo de um humano”) revela a humanidade e a inocência da classe trabalhadora. Em contrapartida, a resposta fria de Bola-de-Neve (“O único ser humano bom é um ser humano morto”) ilustra a brutalidade do pragmatismo revolucionário, onde a empatia é vista como fraqueza e a violência letal é justificada ideologicamente em nome de um bem maior.
O Rescaldo e a Celebração
A égua Mimosa é dada como desaparecida. Inicialmente, os animais temem que tenha sido levada pelos homens, mas é encontrada escondida em sua baia, tendo fugido ao ouvir o estampido do tiro. Sansão demonstra pesar por acreditar ter tirado uma vida humana, sendo repreendido por Bola-de-Neve, que afirma que o único ser humano bom é o ser humano morto. Os animais reúnem-se, cantam o hino, hasteiam a bandeira e realizam um funeral solene para a ovelha morta em combate, sobre cujo túmulo plantam um espinheiro. Por decisão unânime, é criada a condecoração de “Herói Animal, Primeira Classe”, concedida a Bola-de-Neve e a Sansão (medalhas de latão para serem usadas aos domingos e feriados). A ovelha morta recebe a honraria de “Herói Animal, Segunda Classe”. A batalha é oficialmente nomeada como “Batalha do Estábulo”, local onde a emboscada foi concretizada. A espingarda do Sr. Jones, deixada para trás na lama, é recolhida e fixada ao pé do mastro da bandeira. Fica decidido que ela será disparada duas vezes por ano: no dia 12 de outubro (aniversário da Batalha do Estábulo) e no Dia do Solstício de Verão (aniversário da Rebelião).
A criação de condecorações militares (“Herói Animal, Primeira e Segunda Classe”) é a primeira grande fratura estrutural no princípio de que “todos os animais são iguais”. Ao estabelecer patentes e medalhas, a liderança dos porcos começa a criar uma nova hierarquia social baseada no mérito de Estado, pavimentando o caminho para o fim da igualdade irrestrita. O ritual de hastear a bandeira, o funeral da ovelha (o mártir anônimo da revolução) e a fixação da espingarda de Jones como um monumento a ser disparado em datas comemorativas representam a institucionalização da revolução. O evento deixa de ser uma luta por sobrevivência e torna-se uma mitologia de Estado. A espingarda atua como um símbolo do monopólio da violência e do fervor nacionalista, espelhando os grandes desfiles militares na Praça Vermelha da União Soviética. O comportamento da égua Mimosa (Mollie), que se esconde durante o combate, antecipa a deserção da pequena burguesia e dos antigos privilegiados. Eles não estão dispostos a arriscar suas vidas ou perder seus luxos em prol de um ideal coletivo, preferindo a alienação ao sacrifício revolucionário.

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