RESUMO
A Colheita e a Divisão do Trabalho
Os animais assumem inteiramente a tarefa da colheita de feno, adaptando-se às ferramentas desenhadas para mãos humanas. A colheita revela-se o maior sucesso já visto na propriedade, sendo concluída em dois dias a menos que o tempo habitualmente levado pelo Sr. Jones e seus homens, e sem que haja qualquer desperdício. Os porcos não executam trabalho físico. Eles assumem a função de direção, orientação e supervisão das tarefas, justificando a posição pelos seus conhecimentos superiores. O cavalo Sansão destaca-se pelo esforço extremo; realiza sozinho o trabalho de três cavalos, assumindo as tarefas mais pesadas e adotando como lema pessoal a frase: “Trabalharei mais!”. A égua Mimosa (Mollie) e o gato apresentam comportamentos evasivos frente ao trabalho, frequentemente chegando atrasados ou desaparecendo durante os momentos de labor, reaparecendo apenas nas refeições. O burro Benjamin mantém a sua rotina e comportamento inalterados desde a época de Jones. Realiza a sua cota exata de trabalho, não se voluntaria para tarefas extras e não expressa entusiasmo pela Rebelião.
ANÁLISE
A primeira colheita bem-sucedida representa o auge do entusiasmo utópico logo após a revolução. A alegria inicial, contudo, mascara o surgimento de uma nova estratificação de classes. A narrativa estabelece imediatamente que os porcos não realizam trabalho físico, inaugurando a divisão clássica entre o “trabalho intelectual” e o “trabalho braçal”. Esta distinção é a semente da desigualdade: ao se autodenominarem os “trabalhadores do cérebro”, os porcos isentam-se do esforço físico e pavimentam o caminho para se tornarem a nova classe dominante. Em contrapartida, a figura do cavalo Sansão atua como a personificação da classe operária idealizada (o proletariado) — incansável, forte e devotada, mas desprovida de senso crítico. O lema “Trabalharei mais!” demonstra uma lealdade cega que o sistema, mais tarde, explorará de forma implacável.
A Rotina de Domingo e o Governo da Fazenda
O domingo é estabelecido oficialmente como o dia de descanso e de realização das cerimônias semanais. Acontece o hasteamento matinal da nova bandeira da Granja dos Bichos, composta por uma toalha de mesa verde (simbolizando os campos da Inglaterra) pintada com um chifre e um casco cruzados em branco. Após o hasteamento, realiza-se a “Reunião” no celeiro principal, onde o plano de trabalho da semana seguinte é debatido e as resoluções são apresentadas e votadas. A formulação de todas as resoluções é feita exclusivamente pelos porcos. Os demais animais compreendem como votar, mas não são capazes de inventar suas próprias propostas. Bola-de-Neve e Napoleão são os participantes mais ativos dos debates, contudo, estão em constante e sistemático desacordo sobre todos os temas levantados. As cerimônias de domingo sempre se encerram com o cântico do hino “Bichos da Inglaterra”. Os porcos estabelecem a sala de arreios como o seu quartel-general, onde estudam ofícios a partir de livros encontrados na casa sede.
Os rituais de domingo (hasteamento da bandeira e a reunião) são introduzidos para criar um senso de identidade nacional, patriotismo e pertencimento coletivo. No entanto, a análise profunda revela que a “democracia” da fazenda é puramente ilusória. Embora todos os animais tenham direito ao voto, apenas os porcos possuem a capacidade intelectual para formular resoluções. A participação política das massas é, portanto, passiva e reativa. Além disso, a polarização constante entre Bola-de-Neve (representando o idealismo de Leon Trótski) e Napoleão (representando o pragmatismo brutal de Josef Stalin) antecipa a inevitável fratura do movimento revolucionário, onde a disputa pelo poder suplantará o bem-estar da coletividade.
Os Comitês e as Aulas de Alfabetização
Bola-de-Neve cria uma série de “Comitês de Animais”, tentando organizar as diferentes espécies em grupos específicos (como o Comitê de Produção de Ovos, a Liga dos Rabos Limpos e o Comitê de Reeducação dos Camaradas Silvestres). A maioria dos projetos práticos e de reeducação idealizados por Bola-de-Neve resulta em fracasso prático. As aulas de leitura e escrita, porém, alcançam grande sucesso, resultando em algum grau de alfabetização para quase todos os animais até a chegada do outono. Estabelecem-se diferentes níveis de instrução: os porcos leem e escrevem perfeitamente; os cães aprendem a ler razoavelmente bem, mas focam-se apenas nos Sete Mandamentos; a cabra Muriel lê pedaços de jornal; Benjamin sabe ler perfeitamente, mas recusa-se a fazê-lo; a égua Quitéria aprende o alfabeto, mas não consegue formar palavras; Sansão não consegue passar da letra D; e a maioria dos animais (ovelhas, galinhas, patos) não avança além da letra A.
As iniciativas educacionais propostas por Bola-de-Neve expõem a lacuna insuperável entre o ideal revolucionário e a realidade das massas. Os “Comitês” fracassam porque tentam impor uma estrutura organizacional artificial sobre a natureza intrínseca dos animais. Por outro lado, as aulas de leitura revelam um perigo muito maior: a assimetria intelectual inata. A constatação de que apenas os porcos adquirem fluência total na leitura consolida o monopólio da informação. Numa sociedade onde a lei e a história são escritas, a incapacidade da maioria dos animais de ir além da letra “A” garante que eles jamais poderão questionar criticamente os documentos ou as decisões governamentais, tornando-os alvos fáceis da manipulação.
A Redução dos Sete Mandamentos
Devido à incapacidade dos animais menos inteligentes de memorizar e ler os Sete Mandamentos na íntegra, Bola-de-Neve resume os princípios essenciais do Animalismo a uma única máxima: “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. A máxima é pintada na parede do celeiro, posicionada acima dos Sete Mandamentos e redigida em letras maiores. As ovelhas desenvolvem uma enorme predileção por essa frase e adotam o hábito de balir “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” em coro repetidamente, por horas a fio.
A síntese do Animalismo na máxima “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” é uma das críticas mais agudas do capítulo ao uso da propaganda política e dos slogans. Quando um sistema filosófico complexo (os Sete Mandamentos originais) é reduzido a uma frase de efeito, o pensamento crítico é substituído pelo condicionamento psicológico. As ovelhas, representando a massa ignorante e facilmente manipulável, adotam essa máxima não como uma ideia a ser refletida, mas como um mantra a ser repetido. O coro constante das ovelhas passa a funcionar, na prática, como uma ferramenta de censura ruidosa, pronta para afogar qualquer tentativa de debate ou oposição através do simples volume do som.
A Apropriação dos Filhotes e o Mistério do Leite e das Maçãs
Napoleão ignora os comitês de Bola-de-Neve, declarando abertamente que a educação da juventude é mais importante do que qualquer instrução oferecida aos animais adultos. Quando as cadelas Jessie e Bluebell dão à luz nove filhotes saudáveis, Napoleão os retira do convívio de suas mães sob a justificativa de que ele próprio se encarregará da educação deles. Ele os confina em um sótão isolado, fazendo com que o resto da fazenda esqueça rapidamente da sua existência. É revelado o paradeiro do leite desaparecido: o líquido está sendo misturado diariamente na ração dos porcos. É decretado que as maçãs caídas pelos ventos e, posteriormente, toda a colheita principal de maçãs, devem ser recolhidas e levadas exclusivamente para consumo dos porcos na sala de arreios. O porco Garganta é enviado para explicar a decisão aos outros animais, afirmando que o consumo de leite e maçãs é cientificamente necessário para a saúde e o funcionamento cerebral dos porcos, que são os trabalhadores intelectuais e gestores da propriedade. Garganta utiliza a ameaça de um possível retorno do Sr. Jones caso os porcos falhem em sua administração, argumento que convence prontamente os outros animais a concordarem com o privilégio exclusivo dos suínos.
O último item marca o ponto de não retorno moral do Animalismo. A atitude de Napoleão de isolar os filhotes de cachorro sob o pretexto de “educação” é a base para o estabelecimento de uma futura polícia secreta (ou guarda militar isolada da sociedade civil) que só responderá ao ditador. Simultaneamente, a descoberta de que os porcos se apropriaram do leite e das maçãs revela a primeira grande traição econômica da revolução. O discurso proferido por Garganta (a personificação da máquina de propaganda estatal) é uma obra-prima de manipulação retórica. Ele utiliza uma falsa premissa científica (“os porcos precisam do leite para pensar”) aliada à chantagem emocional e à política do medo (“se falharmos, Jones voltará”). Ao aceitarem essa justificativa para manter Jones longe, os animais cedem seus direitos e validam o nascimento de uma nova elite privilegiada, destruindo definitivamente o princípio fundamental de que “todos os animais são iguais”.

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