O Retrato de Dorian Gray: Capítulo 20

Resumo & Análise

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RESUMO

O Retorno e as Reflexões Noturnas
Dorian Gray caminha de volta para a sua casa em Grosvenor Square, numa noite quente, passando por dois jovens que murmuram ao reconhecê-lo. Ao entrar em casa, dirige-se à biblioteca, deita-se num sofá e passa a refletir sobre a sua juventude e a conversa recente que teve com Lord Henry Wotton. Expressa um profundo ressentimento contra a sua própria beleza, considerando-a a verdadeira causa da sua ruína e a máscara que lhe escondeu a verdadeira natureza. Num ímpeto de aversão, Dorian agarra num espelho de mão ornamentado que Lord Henry lhe presenteara anos antes, atira-o contra o chão e esmaga-o em pedaços.

ANÁLISE

O retorno de Dorian Gray a Grosvenor Square sob o peso das palavras de Lord Henry Wotton ilustra o colapso definitivo da utilidade prática da Filosofia do Novo Hedonismo. A beleza e a juventude, que outrora foram celebradas como os valores supremos da existência, passam a ser identificadas pelo protagonista como agentes de sua própria ruína biográfica. O ato de esmagar o espelho de mão — um presente carregado de intenção manipuladora de Lord Henry — carrega uma dupla função semiótica. Primeiramente, representa uma tentativa desesperada de rejeitar a herança intelectual de Henry e a tirania da auto-admiração superficial. Em segundo lugar, evidencia uma ironia trágica: Dorian destrói o espelho mundano porque ele só é capaz de lhe devolver a sua fachada jovem e imaculada, falhando em refletir a angústia e a decrepitude da sua realidade interior.

A Busca por Sinais de Regeneração
Dorian recorda o seu recente e suposto “ato de bondade”: a decisão de poupar a jovem camponesa Hetty Merton, abandonando-a antes de a corromper. Movido por essa lembrança, formula a esperança de que esta boa ação possa ter começado a reverter a deformidade da tela escondida. Munido de uma lamparina, sobe silenciosamente e sozinho os lances de escada em direção ao quarto trancado no sótão.

O episódio envolvendo a camponesa Hetty Merton expõe a falência ética de Dorian Gray através do conceito de “falsa regeneração”. O protagonista tenta usar a virtude não como um fim ético em si mesmo, mas como um cosmético ou um recurso transacional para aliviar a sua angústia psicológica. A subida ao sótão motivada pela esperança de melhora na pintura comprova que a suposta “boa ação” foi motivada pelo egoísmo, pelo orgulho e pelo desejo de comprovar o próprio poder de reversão sobre o pacto místico. Para Dorian, a moralidade funciona como um mero experimento estético e utilitário, despido de qualquer constrição real ou empatia pelo destino alheio.

A Revelação no Sótão
Ao entrar no aposento, Dorian puxa a cortina que cobre o retrato para examinar os possíveis sinais de mudança. Constata imediatamente que a imagem não apresentou qualquer melhora; pelo contrário, o rosto na tela ostenta agora um novo e explícito sorriso de hipocrisia. As manchas vermelhas de sangue pintadas nas mãos parecem ter alastrado, dando a impressão de sangue gotejando sobre a tela. Dorian percebe, através do estado da pintura, que a sua atitude para com Hetty Merton não foi uma verdadeira redenção moral, mas sim um mero capricho ditado pela vaidade, pela curiosidade e pelo desejo de novas sensações.

A revelação de que o retrato piorou e adquiriu uma expressão de “hipocrisia” solidifica a função metafísica da pintura na obra de Oscar Wilde. O quadro funciona como um espelho absoluto e incorruptível da alma, imune às racionalizações intelectuais ou aos auto-enganos do indivíduo. O alastramento do sangue pintado nas mãos do retrato serve como denúncia visual de que a vaidade oculta sob uma máscara de caridade é, aos olhos da justiça cósmica, tão monstruosa quanto o assassinato direto de Basil Hallward. A estética do terror gótico atinge seu ápice quando o sobrenatural desmascara a hipocrisia psicológica do protagonista, aprisionando-o na certeza de sua própria monstruosidade irreversível.

A Decisão Final e a Execução
Dorian compreende que o retrato continuará a ser a prova irrefutável da sua consciência e o único registo visível dos seus crimes passados (incluindo o assassinato de Basil Hallward). Conclui que, para se libertar definitivamente do passado e da angústia constante, deve destruir a pintura. Repara na faca afiada que usara para esfaquear o pintor, que ainda se encontrava guardada naquele mesmo quarto. Empunhando a lâmina, Dorian avança e apunhala o retrato com o objetivo de matar o seu passado e a sua própria consciência.

Ao encarar o retrato como uma evidência externa e um monstro independente a ser eliminado, Dorian Gray demonstra uma incapacidade patológica de assumir a responsabilidade pelas suas próprias escolhas. A recusa em buscar a absolvição através da confissão pública e da punição legal da sociedade vitoriana empurra-o para uma solução puramente destrutiva. O uso da mesma faca que assassinou Basil Hallward para apunhalar a tela encerra um ciclo de violência poética e simetria trágica. Dorian tenta “matar” a sua consciência e o seu passado sem compreender o caráter indivisível da transação mística que realizou na juventude. Como a tela guardava a substância real da sua vida, enquanto o seu corpo de carne era apenas uma casca artificial, o ataque contra o retrato constitui, inevitavelmente, um ato de suicídio físico e metafísico.

O Clímax Sonoro e a Reação Externa
Ouve-se um grito terrível, acompanhado de um baque forte no interior da casa. O som agudo de agonia desperta os criados em seus aposentos e é ouvido por duas pessoas que passavam na rua, incluindo um policial. Após aguardarem cerca de quinze minutos em tensão, um grupo de criados (composto por Francis, o cocheiro e um lacaio) sobe as escadas em direção ao sótão. Ao baterem na porta e não obterem resposta, percebem que ela está trancada por dentro e decidem forçar a entrada através do telhado.

O sótão, que ao longo de dezoito anos funcionou como o santuário hermético do segredo e da amoralidade de Dorian, perde o seu isolamento no momento do clímax. O “grito terrível” funciona como a erupção violenta da verdade oculta no interior da esfera pública e social. A comoção provocada nos criados e nos transeuntes (incluindo a figura do policial, símbolo da lei e da ordem) sinaliza que a impunidade concedida pela estética e pela riqueza aristocrática chegou ao fim. O intervalo de quinze minutos em que os criados hesitam do lado de fora da porta serve para construir a tensão dramática e ilustrar a rigidez das barreiras sociais vitorianas, que vacilam antes de violar a privacidade do fidalgo.

A Cena Encontrada
Quando finalmente conseguem penetrar no quarto, os criados deparam-se com o retrato do seu patrão pendurado na parede, exibindo toda a sua deslumbrante juventude, beleza e perfeição originais. Caído no chão, diante da tela, repousa o cadáver de um homem em trajes de gala, com uma faca encravada no coração. O corpo é descrito como sendo de um homem velho, fisicamente repulsivo, enrugado e de feições hediondas. Os criados apenas conseguem identificar o morto como sendo Dorian Gray após examinarem atentamente os anéis cravados de pedras preciosas que ele usava nos dedos.

O desfecho da narrativa oferece uma resolução drástica para o conflito entre Esteticismo e Moralidade. A morte de Dorian opera uma reversão instantânea das leis sobrenaturais do pacto: o tempo e o pecado, represados por décadas, desabam de uma só vez sobre o corpo físico do protagonista, deixando-o repulsivo, enrugado e irreconhecível. O fato de Dorian só poder ser identificado pelos anéis aristocráticos sublinha a ironia de que a sua identidade humana foi completamente devorada pelos seus vícios, restando dele apenas os adornos materiais de sua classe social. Em contrapartida, o retrato retorna à sua condição original de pureza, juventude e beleza inabaláveis. Essa imagem final consagra a tese central de Oscar Wilde contida no prefácio do livro: a vida humana é efêmera, degradável e propensa à corrupção moral, ao passo que a Arte é soberana, imutável e eterna. O quadro sobrevive ao seu modelo, imune aos crimes e às misérias da carne que outrora o mancharam.

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