RESUMO
A Decisão de Partir e a Correspondência com Longbourn
Jane Bennet encontra-se suficientemente recuperada para descer e passar algum tempo na sala de estar, o que leva Elizabeth a decidir que é o momento adequado para regressarem a Longbourn. Na manhã de sábado, Elizabeth escreve à Sra. Bennet, solicitando que a carruagem da família seja enviada para buscá-las no decorrer daquele mesmo dia. A Sra. Bennet, desejando prolongar a estadia das filhas em Netherfield para encorajar a ligação entre Jane e o Sr. Bingley, responde negativamente, afirmando que os cavalos estão ocupados com a agricultura e que a carruagem não estará disponível antes de terça-feira. Elizabeth, recusando-se a ficar onde percebe que não são verdadeiramente bem-vindas, insiste na partida e decide pedir emprestada a carruagem do próprio Sr. Bingley para a manhã de domingo.
ANÁLISE
Este segmento expõe o choque frontal entre a bússola moral de Elizabeth e o pragmatismo mercantilista da Sra. Bennet. A urgência de Elizabeth em partir reflete a sua aguçada percepção social e o seu forte senso de dignidade; ela reconhece que as irmãs Bennet já não são visitas desejadas pelas anfitriãs e recusa-se a submeter-se à humilhação de prolongar uma estadia forçada. Por outro lado, a recusa da Sra. Bennet em enviar a carruagem sublinha a sua total falta de decoro e a sua visão tática da maternidade. Para a matriarca, o constrangimento social de impor a presença das filhas é um preço irrelevante a pagar diante da possibilidade de garantir o casamento de Jane com um herdeiro rico. A atitude de Elizabeth em pedir a carruagem de Bingley demonstra a sua agência e independência, preferindo uma dívida de favor direta com o anfitrião a continuar num ambiente hostil arquitetado pelas ambições vulgares de sua mãe.
As Reações à Partida em Netherfield
O Sr. Bingley demonstra tristeza genuína com a notícia da partida de Jane e expressa o seu pesar abertamente, tentando, sem sucesso, convencê-las a adiar a saída. A Srta. Caroline Bingley e a Sra. Hurst fingem um profundo pesar pela notícia da partida, mas, na realidade, sentem um imenso alívio, especialmente por se verem livres da presença constante de Elizabeth. O Sr. Darcy recebe a notícia da partida de Elizabeth com igual sentimento de alívio, embora por motivos distintos: reconhece que tem demonstrado um interesse muito maior por ela do que pretendia e teme comprometer a sua própria resolução de não se envolver.
As reações à partida revelam as verdadeiras naturezas e motivações do grupo de Netherfield, servindo como um microcosmo da hipocrisia e das amarras de classe da sociedade da época. A tristeza de Bingley atesta a sua sinceridade e bom coração, mas também a sua passividade romântica, uma vez que ele não toma nenhuma atitude concreta para reter Jane além de súplicas educadas. Em contraste, a falsidade da Srta. Bingley e da Sra. Hurst personifica a superficialidade da elite; o alívio que sentem não é apenas a remoção de um estorvo, mas a eliminação de rivais, garantindo que as fronteiras do seu círculo aristocrático permaneçam intactas. O alívio do Sr. Darcy, contudo, é o mais complexo: não nasce do desprezo, mas do medo. Ele sente alívio por escapar do fascínio que Elizabeth exerce sobre ele, revelando que os seus sentimentos já ultrapassaram o seu controle racional e ameaçam as noções de dever e status que estruturam a sua identidade.
O Distanciamento Voluntário do Sr. Darcy
Durante o último dia da estadia das irmãs Bennet, no sábado, Darcy toma a firme decisão de se afastar física e emocionalmente de Elizabeth para evitar encorajá-la. Evita qualquer conversa particular com ela, fala-lhe o mínimo necessário e mantém o propósito férreo de não lhe dirigir um único olhar de admiração durante todo o dia. Elizabeth nota a mudança drástica de comportamento, mas apenas interpreta a frieza de Darcy como uma demonstração do seu desagrado para com ela.
O isolamento forçado que Darcy impõe a si mesmo no sábado é um atestado da sua rigidez moral e da sua dependência do autocontrole. Ao perceber que a sua atração por Elizabeth cruza a linha do perigo social (devido às origens inferiores e à família embaraçosa da jovem), Darcy utiliza o silêncio e a frieza como escudos defensivos. O elemento trágico e irônico desta cena repousa na interpretação de Elizabeth. Cega pelo “Preconceito” que já formou contra ele, ela é incapaz de ler o silêncio de Darcy como uma luta interna ou como uma prova do poder que ela tem sobre ele. Em vez disso, a lente do seu ressentimento distorce a situação, levando-a a confirmar a sua crença de que ele é apenas um homem arrogante que a despreza. Este momento cristaliza a falha trágica central da obra: a incapacidade de ambos se comunicarem além das suas defesas (o Orgulho dele e o Preconceito dela).
A Despedida e o Retorno a Longbourn
Na manhã de domingo, após o desjejum, a carruagem de Bingley é preparada para o transporte. A despedida entre as mulheres é formal, repleta de educadas promessas de afeto e de visitas futuras propostas pela Srta. Bingley e pela Sra. Hurst a Jane Bennet. O Sr. Darcy despede-se apenas com uma reverência silenciosa e contida. Jane e Elizabeth fazem a curta viagem e chegam finalmente à propriedade de Longbourn.
A cena da despedida ilustra a força dos rituais sociais como máscaras para os verdadeiros sentimentos. As promessas efusivas de amizade das irmãs Bingley a Jane são atuações vazias, exigidas pela etiqueta aristocrática, mas desprovidas de substância. A reverência silenciosa de Darcy é o gesto mais eloquente de todos: o corpo obedece à regra social de cortesia, mas o silêncio evidencia a imensa repressão emocional a que ele se submete para não trair a sua determinação de esquecê-la. A curta viagem de carruagem funciona como uma ponte transicional, encerrando o isolamento quase mágico e intenso de Netherfield e devolvendo as heroínas à realidade ruidosa e caótica da sua condição familiar.
A Recepção na Residência dos Bennet
A Sra. Bennet recebe o retorno das filhas com evidente desagrado, lamentando a interrupção precoce da convivência em Netherfield e criticando o fato de terem regressado antes de terça-feira. O Sr. Bennet, ao contrário da esposa, demonstra grande e sincera alegria com o regresso de Jane e Elizabeth, confessando que a casa se tornara vazia e insuportável sem a companhia das suas duas filhas mais sensatas. Mary Bennet as recebe com algumas reflexões recém-retiradas de um grande livro que estava a ler, enquanto Kitty e Lydia correm imediatamente a informar as irmãs sobre as últimas notícias frívolas envolvendo os oficiais da milícia local.
O retorno a Longbourn escancara a desolação intelectual e emocional do lar dos Bennet. A reação imediata de lamento da Sra. Bennet expõe, mais uma vez, o seu narcisismo e a sua incapacidade de valorizar o conforto das filhas acima dos seus próprios esquemas fúteis. Em contrapartida, a alegria do Sr. Bennet revela a sua dependência de Jane e Elizabeth para tolerar a própria vida; ele reconhece implicitamente que as duas são as únicas mentes racionais dentro daquela casa. As figuras das irmãs mais novas complementam o quadro da disfunção familiar: Mary, com os seus comentários de livros, representa uma erudição pedante e vazia de vivência, enquanto Kitty e Lydia, imediatamente tagarelando sobre os oficiais da milícia, encarnam a frivolidade perigosa e sem supervisão moral que, mais tarde, será o catalisador do desastre da família. O contraste entre a sofisticação (mesmo que hipócrita) de Netherfield e o caos mundano de Longbourn fica, assim, definitivamente estabelecido.

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