Resumo & Análise
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Livro 1, Capítulo 5
RESUMO
O Fim de Semana com Marie
O protagonista encontra-se com Marie no sábado e os dois vão juntos à praia para nadar. Ele relata que a desejou intensamente. Após o banho de mar, retornam ao apartamento do protagonista, onde Marie passa a noite. No domingo de manhã, enquanto ela ainda está no apartamento, ouvem uma briga intensa, com gritos e sons de espancamento vindos do quarto do vizinho, Raymond Sintès.
ANÁLISE
A relação do protagonista com Marie é estruturada inteiramente em torno dos prazeres sensoriais. O desejo de nadar, o contato com a água e o desejo sexual são os verdadeiros motores de sua interação com ela. A narrativa em terceira pessoa evidencia a total ausência de romantismo ou de projeções futuras; o foco está no “agora” e na satisfação biológica e tátil. O banho de mar atua como um momento de rara harmonia para o protagonista. Enquanto a sociedade (o tribunal, o funeral, a religião) o oprime, a natureza — especificamente a água — oferece-lhe um conforto amoral, onde as convenções humanas não existem.
A Intervenção Policial no Prédio
A mulher que está no quarto com Raymond grita desesperadamente, atraindo a atenção de todos os vizinhos, que se aglomeram no patamar. Marie, assustada com a violência, pede ao protagonista que vá chamar a polícia. Este recusa o pedido dela, afirmando simplesmente que não gosta de policiais. Um policial chega ao local, acionado por outro morador do prédio, e bate na porta de Raymond até que este a abra. O policial confronta Raymond, e, quando este responde sem tirar o cigarro da boca, o agente lhe dá um forte tapa no rosto. A mulher chora, acusa Raymond de tê-la espancado e é escoltada para fora pelo policial. Raymond é avisado de que será intimado a comparecer à delegacia.
O contraste entre a reação de Marie e a do protagonista é fundamental para a construção do absurdo. Enquanto Marie reage com o pavor e a indignação esperados pelos padrões éticos da sociedade, o protagonista permanece como um observador clínico, passivo e desprovido de empatia pela dor da mulher espancada. A recusa dele em chamar a polícia não nasce de um princípio moral ou de uma lealdade a Raymond, mas de uma simples aversão instintiva (“não gosta de policiais”). Essa atitude prefigura o seu desajuste em relação às instituições de justiça e ordem, que mais tarde o julgarão não apenas por um crime, mas por essa mesma inadequação social.
O Acordo com Raymond
Marie vai embora do apartamento pouco depois do incidente. O protagonista prepara o seu almoço e come sozinho. Mais tarde, Raymond bate à sua porta para conversar e relata a sua versão dos acontecimentos ocorridos pela manhã. Raymond pede ao protagonista que sirva de testemunha a seu favor, corroborando que a mulher o havia provocado e traído. Ele concorda em ser sua testemunha sem apresentar nenhuma objeção, afirmando que para ele tanto faz. Os dois saem juntos, bebem conhaque em um café, jogam bilhar e caminham, demonstrando um estreitamento na relação de camaradagem entre eles.
A concordância do protagonista em servir de testemunha falsa para Raymond ilustra o núcleo de sua filosofia existencial: a equivalência de todas as escolhas. Para ele, mentir ou dizer a verdade, ser amigo de um cafetão ou rejeitá-lo, não possui peso moral. Age movido pela conveniência do momento e pela ausência de motivos para dizer “não”. A camaradagem que se consolida no jogo de bilhar e nos copos de conhaque é construída sobre alicerces ocos. Raymond busca validação e um cúmplice; o protagonista apenas se deixa levar pela inércia. A narrativa mostra como as relações humanas podem ser facilmente forjadas a partir do vácuo emocional.
O Desaparecimento do Cão e o Choro de Salamano
Ao retornarem ao prédio no final do dia, o protagonista e Raymond encontram o velho vizinho, Salamano, em estado de desespero. Salamano explica que o seu cachorro, que costumava maltratar, fugiu e desapareceu enquanto ele o levava para passear na Praça de Armas. O protagonista sugere ao velho que ele vá à carrocinha para pagar a taxa e recuperar o animal. Salamano recusa-se indignado a pagar dinheiro por aquele cão específico, mas, apesar da recusa financeira, demonstra estar profundamente angustiado e trêmulo com a perda do animal. Mais tarde, à noite, no silêncio do seu quarto escuro, o protagonista ouve o som dos passos de Salamano e, em seguida, escuta o choro abafado do velho atravessando a parede. O choro de Salamano faz o protagonista lembrar-se brevemente de sua mãe, antes de finalmente adormecer.
A relação de Salamano com o seu cão é um espelho distorcido das relações humanas. Apesar de agredir e xingar o animal diariamente, a sua perda revela um desespero profundo. A análise aponta que o sofrimento de Salamano não provém do amor no sentido tradicional, mas da quebra irracional de uma rotina. O homem é escravo do hábito, e a perda daquilo que se odeia pode ser tão dolorosa quanto a perda do que se ama. O choro abafado do velho atravessando a parede é um raro momento em que o sofrimento externo penetra a bolha de isolamento do protagonista. A associação fugaz que ele faz com a própria mãe não desencadeia uma catarse de luto, mas demonstra como a memória e a dor funcionam nele: através de reflexos puramente mecânicos e sensoriais (o som no escuro). Logo em seguida, adormece, reafirmando a vitória das necessidades biológicas sobre o torpor emocional.

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