O Estrangeiro: Livro 1, Capítulo 3

Resumo & Análise

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Livro 1, Capítulo 4

RESUMO

O Expediente de Trabalho e o Almoço
O protagonista chega ao escritório pela manhã e assume a sua rotina de trabalho com os conhecimentos de carga. O seu patrão dirige-se a ele de maneira amigável, perguntando se ele não está muito cansado, ao que o protagonista responde de forma polida. Ao meio-dia, o protagonista vai ao banheiro lavar as mãos, notando que desfruta mais desse momento ao meio-dia, quando a toalha de rolo está seca, do que no fim do dia, quando ela já está completamente úmida. Ele desce do prédio junto com Emmanuel, um colega de trabalho. Para chegarem mais rápido, ambos correm atrás de um caminhão em movimento, saltam na sua carroceria e deixam-se levar até perto do restaurante de Céleste. Durante o almoço no restaurante, o protagonista é recebido com simpatia e compaixão pelos presentes. Céleste pergunta sobre a situação dele após a morte da mãe, ao que ele responde de modo breve, afirmando que agora tudo passou. Após a refeição, retorna ao escritório, passa a tarde conferindo conhecimentos de carga e, ao fim do expediente, caminha a pé de volta para casa.

ANÁLISE

A passagem da toalha no banheiro ilustra a essência do existencialismo do protagonista. Ele não extrai sentido de grandes reflexões profissionais ou lutos familiares, mas sim de confortos sensoriais imediatos. A satisfação tátil de usar uma toalha seca ao meio-dia, em contraste com a repulsa pela toalha úmida no fim do dia, possui para ele mais concretude e relevância do que as convenções sociais de luto. A corrida atrás do caminhão com Emmanuel reforça a fixação do protagonista no instante presente e no corpo físico. O movimento, a velocidade e o ruído da máquina o engajam de forma instintiva. O almoço no restaurante de Céleste expõe a fricção entre a empatia social (a compaixão dos clientes e do dono) e a frieza do protagonista. Ao resumir a morte da mãe com um “agora tudo passou”, nega à sociedade a performance de sofrimento que dela se espera, reduzindo a morte a um fato biológico já encerrado que não deve interferir no apetite ou na rotina diária.

O Encontro com Salamano e seu Cão
Ao subir as escadas do seu prédio, o protagonista encontra no patamar o seu vizinho, Salamano, e o seu velho cão da raça spaniel. Ambos — homem e animal — convivem há oito anos, possuem uma doença de pele que lhes causa crostas avermelhadas e assemelham-se fisicamente. O protagonista observa a violenta rotina diária entre os dois: Salamano puxa violentamente a coleira, espanca e xinga o cão de “sujo” e “asqueroso”, enquanto o animal se arrasta e geme.

A relação entre Salamano e seu cão serve como um microcosmo do absurdo da condição humana. O ódio mútuo, a violência diária e os xingamentos mascaram uma profunda e inquebrável dependência. O fato de se assemelharem fisicamente (ambos com crostas de doença) simboliza como o tempo e o hábito moldam e degradam os seres. Salamano funciona como um contraponto espelhado do protagonista. Enquanto o protagonista é pautado pela apatia, indiferença e desapego emocional (inclusive com a própria mãe recém-falecida), Salamano é dominado por uma paixão violenta, um apego doentio e uma rotina irascível com um animal. Ambos, no entanto, estão aprisionados na repetitividade sem sentido da vida.

O Jantar e o Acordo com Raymond Sintès
Logo em seguida, o protagonista encontra outro vizinho do mesmo andar, Raymond Sintès, que trabalha como guarda de armazém, embora a vizinhança acredite que ele seja um rufião (cafetão). Raymond, que está com a mão machucada e enfaixada após se envolver em uma briga recente, convida o protagonista para comer chouriço e beber vinho no seu quarto. O protagonista aceita o convite imediatamente e sem questionamentos, pois isso lhe pouparia o trabalho de ter que preparar o seu próprio jantar. Durante a refeição, Raymond relata detalhadamente a sua situação amorosa: ele tem sustentado uma amante moura, mas descobriu recentemente indícios materiais de que ela o traía (um bilhete de loteria que ela não soube explicar e um recibo de penhor). Raymond narra que bateu na amante até sangrar, o que motivou a briga com o irmão dela, resultando no seu machucado na mão. Ele expõe o seu plano de vingança: quer escrever uma carta calculada para ferir os sentimentos da amante e atraí-la de volta. Quando ela chegar, a intenção dele é ir para a cama com ela, e no momento exato em que ela terminar, cuspirá no seu rosto e a expulsará. Raymond admite não ter facilidade para escrever a carta e pede que o protagonista redija o documento no seu lugar. O protagonista concorda e escreve a carta de imediato. Ele o faz aplicando o melhor tom possível para agradar ao vizinho, declarando internamente que não via motivo para não fazê-lo. Após ler a carta redigida, Raymond fica satisfeito, declara que os dois agora são “camaradas” e o protagonista responde que, para ele, tanto faz.

A decisão do protagonista de jantar com Raymond é motivada puramente pela conveniência física (evitar o esforço de cozinhar). Isso revela a perigosa amoralidade do protagonista: ele transita pelas esferas do certo e do errado sem qualquer bússola ética. Ele não julga Raymond por ser um cafetão ou por espancar a amante, ouvindo o relato de violência com a mesma objetividade com que conferia os conhecimentos de carga no escritório. O momento em que o protagonista aceita escrever a carta de vingança é um ponto de virada crucial na obra. Ele não o faz por maldade ou por sadismo, mas pela força de sua própria indiferença (a filosofia do “tanto faz”). Ao não encontrar “motivo para não fazê-lo”, ele se torna cúmplice ativo de uma trama violenta. A facilidade com que ele adota as palavras e os sentimentos que agradariam a Raymond prova que as convenções humanas para ele são apenas mecânicas maleáveis, desprovidas de valor intrínseco. Quando Raymond decreta que agora são “camaradas”, o protagonista apenas aceita passivamente. A amizade, um laço tradicionalmente construído sobre afinidade e confiança, é aqui forjada a partir da conveniência de um e da total letargia do outro.

O Encerramento da Noite
O protagonista despede-se de Raymond, sai para o patamar escuro e retorna ao seu próprio quarto para dormir. Antes de adormecer, através das paredes do prédio, ouve os gemidos surdos e constantes do cão de Salamano vindo do apartamento vizinho.

O retorno ao quarto escuro sublinha a alienação e a solidão fundamental do protagonista, que habita um espaço físico e mental impenetrável. Os gemidos surdos do cão atravessando a parede fecham o capítulo com uma nota de melancolia. Representam a dor contínua e latente do mundo exterior — uma dor cíclica, presa aos hábitos irracionais da vida (Salamano e o cão) — que chega aos ouvidos do protagonista, mas não é capaz de perturbar a sua indiferença ou alterar o seu sono.

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Canto II

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