O Estrangeiro: Livro 1, Capítulo 2

Resumo & Análise

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Livro 1, Capítulo 3

RESUMO

O Despertar e a Ida ao Banho de Mar
O protagonista acorda e percebe que é sábado. Recorda que seu patrão demonstrou contrariedade quando lhe foram solicitados os dois dias de folga, o que resultou em uma ausência de quatro dias seguidos do trabalho. Para aproveitar a manhã, decide ir nadar no estabelecimento balneário do porto de Argel.

ANÁLISE

A ida ao mar logo na manhã seguinte ao enterro da mãe marca a centralidade do corpo na experiência do protagonista. A água salgada e o sol atuam não como elementos de reflexão ou purificação espiritual, mas como estímulos sensoriais imediatos. A ausência de luto interior cede espaço à necessidade biológica de movimento e frescor. A lembrança do patrão aborrecido pelos dias de folga demonstra a fricção entre as obrigações sociais do mundo burguês (o trabalho, a produtividade) e a realidade inegável da morte. Para o protagonista, as regras da sociedade não possuem peso moral.

O Encontro com Marie Cardona
Na água, ele encontra Marie Cardona, uma ex-datilógrafa de seu escritório, por quem já sentia atração no passado. Ele a ajuda a subir em uma boia flutuante. Durante a brincadeira na água, encosta a nuca no ventre dela. Os dois nadam e mergulham juntos.

O reencontro com Marie não se dá por vias de um flerte romântico tradicional, mas pelo contato físico direto. O ambiente aquático facilita essa fusão corporal (o toque da nuca no ventre dela). A narrativa enfatiza o desejo, o calor e a fisicalidade, rejeitando qualquer idealização amorosa. O encontro é puramente acidental. O protagonista não a procura; as coisas simplesmente acontecem no fluxo contínuo do presente. Isso reforça a visão absurda de que a vida não tem roteiro ou destino, sendo governada pela aleatoriedade.

O Diálogo sobre o Luto
Enquanto estão secando-se ao sol, Marie nota que o protagonista está usando uma gravata preta. Ela questiona se ele está de luto, e ele confirma que sim, devido à morte da mãe. Ao ser perguntado sobre quando ocorreu o falecimento, ele responde “ontem”. Marie reage com um leve sobressalto, dando um pequeno passo para trás, mas não faz nenhum comentário adicional de censura.

Este é um momento crucial de antecipação. Quando o protagonista responde que a mãe morreu “ontem”, a reação de Marie (o sobressalto e o recuo) representa o primeiro pequeno julgamento moral da sociedade sobre o seu comportamento. Ele não tenta suavizar o fato ou fingir consternação para se adequar ao que Marie esperaria de um filho enlutado. A sua linguagem é pragmática e desprovida do vocabulário da dor, o que evidencia sua recusa categórica em teatralizar sentimentos que não possui.

O Cinema e o Encontro Noturno
Eles combinam de sair juntos à noite para ir ao cinema. Assistem a um filme cômico com o ator Fernandel. Durante a exibição do filme, ele acaricia os seios de Marie e a beija. Após a sessão, Marie o acompanha até o seu apartamento e os dois passam a noite juntos.

A escolha de assistir a uma comédia (com Fernandel) logo após um funeral é o ápice da quebra das normas sociais de decência. A justaposição da morte com o riso e o erotismo reforça a filosofia do absurdo: a morte de um indivíduo não paralisa a vida, o desejo ou a diversão. O protagonista vive confinado no presente absoluto. O que aconteceu ontem (o enterro) não contamina o que acontece hoje (o prazer). Não há um fio condutor de culpa ou trauma ligando os seus dias.

A Manhã de Domingo
O protagonista desperta no domingo e nota que Marie já foi embora para a casa da tia. Ele decide não se levantar de imediato, permanecendo na cama até perto do meio-dia, sentindo o cheiro de sal que o cabelo dela deixou no travesseiro. Ele fuma no quarto e, ao sentir fome, finalmente levanta-se para preparar o almoço. Cozinha alguns ovos e come diretamente na frigideira, sem usar pratos, comendo pão.

A decisão de não se levantar, de comer os ovos direto na frigideira e sem pratos, revela um personagem que descarta tudo o que é supérfluo. As regras de etiqueta e os ritos domésticos perdem o sentido diante da utilidade prática e da necessidade biológica (fome). A ausência de Marie não provoca nele saudade romântica, mas a constatação física de um cheiro de sal no travesseiro. A ausência do outro é sentida apenas materialmente.

A Observação da Rua a Partir da Varanda
Após comer, ele arrasta uma cadeira para a varanda do apartamento. Senta-se, fuma e passa toda a tarde observando ininterruptamente e passivamente a movimentação da rua principal. Descreve a passagem de diversos perfis de pessoas: famílias arrumadas para passear, crianças de luto, jovens engravatados a caminho dos cinemas e os comerciantes locais. Com o avançar das horas, observa a mudança no fluxo, notando o retorno dos torcedores dos estádios locais, que chegam em bondes lotados, cantando e gritando.

A varanda funciona como uma fronteira física e metafórica entre o protagonista e a sociedade. Ele assiste ao desfile humano como quem assiste a uma peça de teatro ou a um aquário. Há curiosidade visual, mas nenhum engajamento emocional ou desejo de pertencimento. Ele descreve as famílias, as crianças e os torcedores de futebol com a mesma objetividade analítica. A vida em sociedade é retratada como um mecanismo rotineiro e repetitivo. A sua observação ininterrupta é uma forma de atestar a passagem monótona do tempo, vazia de significado transcendental.

O Cair da Noite e a Conclusão do Fim de Semana
O protagonista acompanha visualmente o escurecer do céu e a alteração da luz incidindo sobre os telhados e a rua. As luzes dos postes de iluminação se acendem, fazendo as estrelas desaparecerem do céu noturno. Os espectadores dos cinemas e das sessões da tarde retornam à rua, gerando um último momento de agitação antes que a via fique completamente deserta. Ele deixa a varanda, entra no apartamento, desce para comprar pão e macarrão, cozinha a sua janta e come em pé. O capítulo termina com o protagonista fechando a janela e constatando os fatos: o domingo terminou, o enterro de sua mãe já passou, no dia seguinte voltará ao trabalho e, na prática, nada em sua vida mudou.

A constatação final de que “o domingo terminou, o enterro passou e nada mudou” é a síntese existencial do capítulo. O protagonista percebe que a morte da mãe não alterou a engrenagem do mundo. O sol nasce e se põe, as pessoas continuam indo ao cinema e ao estádio, e amanhã haverá trabalho. Este fechamento cristaliza a noção de que o universo não se importa com a perda humana. O protagonista aceita esse fato com naturalidade e conformismo. Retoma sua rotina de cozinhar e comer em pé, assimilando a morte como apenas mais um fato consumado na continuidade biológica e absurda da existência.

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Canto II

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