RESUMO
O Exílio em Mântua e o Sonho Ilusório
A cena transcorre de dia, em uma rua da cidade de Mântua, onde Romeu se encontra exilado após o decreto do Príncipe de Verona. Romeu entra em cena desacompanhado, refletindo em voz alta sobre um sonho que teve durante a última noite, o qual o deixou com um ânimo incomumente leve e cheio de pensamentos alegres ao longo de todo o dia. Ele relata o conteúdo do sonho: imaginou que estava morto quando sua amada Julieta o encontrou. No sonho, Julieta soprava-lhe tamanha vida nos lábios com um beijo que ele ressuscitava e se via transformado em um imperador.
ANÁLISE
O sonho de Romeu atua como um recurso de ironia dramática devastadora. Ao sonhar que estava morto e que o beijo de Julieta lhe devolvia a vida, provocando-lhe uma sensação de euforia matinal, o texto inverte cruelmente a realidade iminente. O sonho prenuncia os elementos físicos exatos do desfecho (a morte, o encontro no túmulo, o beijo), mas subverte a sua ordem e o seu significado cósmico. Na catacumba, Julieta de fato o encontrará morto e o beijará, contudo, o beijo não trará a ressurreição, mas sim a constatação da tragédia e a busca pelo veneno residual nos lábios dele. A alegria ilusória de Romeu serve para acentuar, pelo choque do contraste, o impacto avassalador da desgraça que está prestes a desabar.
A Chegada de Baltasar e as Notícias de Verona
O solilóquio de Romeu é interrompido pela aproximação de Baltasar, seu criado de confiança, que chega diretamente de Verona ainda calçando pesadas botas de montaria. Romeu corre em sua direção e o questiona avidamente sobre as notícias de sua cidade natal, perguntando especificamente se ele traz alguma carta escrita pelo Frei Lourenço, como está a Senhora Julieta e como se encontra o pai dela. Romeu repete a pergunta sobre Julieta, afirmando que nada pode estar mal se ela estiver bem. Baltasar responde que, sendo assim, ela está bem, pois seu corpo agora repousa no mausoléu da família Capuleto e sua parte imortal vive com os anjos. O criado confessa que testemunhou com os próprios olhos o momento em que Julieta foi depositada na cripta de seus ancestrais e que montou a cavalo imediatamente para levar a notícia ao seu mestre, pedindo perdão por ser o portador de uma mensagem tão terrível.
A chegada do criado representa o ponto de colapso absoluto na estrutura da obra, marcando o triunfo do acaso sobre os planos humanos. Baltasar traz a verdade empírica (o corpo de Julieta foi depositado no mausoléu), mas carrega a mais trágica inverdade factual (Julieta não está morta). A ausência do mensageiro do Frei Lourenço evidencia a fragilidade da razão perante as intempéries do destino. Além disso, a conclusão quase instintiva de Romeu de que “nada pode estar mal” se a amada repousa com os anjos ilustra a sacralização do sentimento; no entanto, é essa mesma devoção absoluta que o cega para qualquer questionamento prudente, empurrando-o instantaneamente para o abismo.
O Desespero de Romeu e as Ordens de Partida
Diante da notícia da morte, Romeu reage com perplexidade, proferindo uma declaração de desafio aos céus: “Então, eu vos desafio, estrelas!”. Logo em seguida, ele ordena a Baltasar que vá buscar papel e tinta, e que contrate cavalos de aluguel de imediato, anunciando sua decisão de viajar para Verona naquela mesma noite. Baltasar suplica que o mestre tenha paciência e tente se acalmar, relatando que o rosto de Romeu está pálido e carrega um olhar selvagem, o que pressagia infortúnios e perigos. Romeu dispensa os conselhos do criado, diz que Baltasar está enganado e questiona mais uma vez se ele realmente não traz nenhuma carta de Frei Lourenço. Baltasar confirma que não traz carta alguma, e Romeu o despede definitivamente, mandando-o tratar dos cavalos e prometendo encontrá-lo em breve. O criado sai de cena.
O célebre grito de desafio às estrelas consolida o clímax psicológico do protagonista. Ao longo da narrativa, Romeu manifestou-se repetidas vezes como um joguete passivo do destino, pressentindo forças astrológicas que guiavam a sua ruína. Neste instante decisivo, ao acreditar que o cosmos destruiu a sua única âncora existencial, ele se rebela ativamente contra o determinismo. A suprema ironia estrutural, contudo, reside no fato de que, ao tomar as rédeas de suas ações para desafiar o destino, precipitando o próprio suicídio, Romeu atua como o principal executor da profecia fatal. A sua transformação de um jovem melancólico e passivo para um agente resoluto e gélido sela a gênese do herói irreversivelmente trágico.
A Determinação do Suicídio e a Busca pelo Boticário
Novamente sozinho, Romeu profere a decisão inabalável de ir repousar ao lado do corpo de Julieta naquela mesma noite, passando a articular os meios logísticos para efetuar o suicídio. Ele se lembra de ter visto recentemente um boticário (farmacêutico) naquelas redondezas, descrevendo o homem de forma extremamente detalhada: alguém vestido com roupas esfarrapadas, de sobrancelhas pesadas, olhar abatido, fisionomia esquelética e visivelmente consumido pela fome extrema. Romeu descreve o interior da loja miserável do homem, recordando-se de ter visto uma tartaruga empalhada, um crocodilo embalsamado, peles disformes de peixes penduradas e algumas prateleiras vazias contendo apenas caixas verdes, potes de barro, bexigas e alguns fios de barbante espalhados para dar a ilusão de um estabelecimento em funcionamento. Baseado nessa miséria, Romeu conclui que este homem desesperado seria capaz de vender veneno, mesmo sabendo que a comercialização de substâncias letais em Mântua é um crime punido com a pena de morte imediata. Romeu aproxima-se do estabelecimento e grita chamando pelo dono.
A lembrança detalhada e fotográfica que Romeu acessa sobre a loja do Boticário demonstra a lucidez assustadora que o desespero e o niilismo extremo podem provocar. A descrição da miséria, com o crocodilo embalsamado e as prateleiras esquálidas, transcende o mero detalhe de cenário; trata-se de uma incisiva crítica sociológica e de um reflexo externo do vazio que agora devora o protagonista. Romeu abandona qualquer restrição moral e utiliza de uma racionalidade implacável para calcular que a miséria extrema anula a ética humana, convertendo a indigência do próximo na engrenagem perfeita para o seu aniquilamento voluntário.
O Diálogo com o Boticário e a Compra do Veneno
O boticário atende ao chamado e pergunta quem está gritando com tanta força. Romeu constata a pobreza do homem e oferece-lhe imediatamente a alta quantia de quarenta ducados em troca de um frasco de veneno fulminante, que se espalhe rápido pelas veias e faça quem o ingerir cair morto tão subitamente quanto a pólvora disparada por um canhão. O boticário confirma que possui misturas letais com essas características, mas adverte Romeu sobre a lei de Mântua, ressaltando que qualquer pessoa descoberta vendendo tais venenos é condenada à execução. Romeu contra-argumenta usando a condição física e social do Boticário: diz que o homem está morrendo de inanição, que a miséria grita em seus olhos, e que nem o mundo nem a lei do mundo são amigos dele para que ele os respeite. Romeu o incentiva a pegar o dinheiro e quebrar a lei. O boticário cede à proposta com a frase: “Minha pobreza, não minha vontade, consente”. Romeu responde que paga à pobreza, não à vontade dele. O homem entrega a Romeu o veneno e dá as instruções: o líquido deve ser diluído em qualquer bebida e ingerido. Ele assegura que o efeito seria letal mesmo que o indivíduo tivesse a força de vinte homens.
O embate verbal em torno da venda da substância letal configura-se como um profundo debate sobre justiça e desigualdade. Ao argumentar que a lei de Mântua não oferece qualquer amparo à vida do Boticário e que, consequentemente, ele não deve obediência a um sistema que o condena à fome, o texto relativiza a moralidade das leis estatais frente à miséria humana absoluta. A rendição do farmacêutico sob a justificativa de que a sua vontade resiste, mas a sua pobreza cede, ilustra a extrema vulnerabilidade dos despossuídos. Subverte-se, assim, o papel da lei: a punição judicial ameaça com a morte, mas a inanição diária executa sem qualquer piedade.
O Pagamento e a Saída rumo a Verona
Romeu entrega os quarenta ducados de ouro ao boticário. Romeu afirma que o ouro entregue é um veneno muito pior para a alma dos homens e comete muito mais assassinatos neste mundo repugnante do que as misturas fracas que o boticário é proibido de vender. Romeu diz ser ele quem está vendendo o veneno ao homem, não o contrário. Despedindo-se, Romeu orienta o Boticário a comprar comida e ganhar algum peso. Romeu guarda o frasco e o chama não de veneno, mas de um “cordial” (um remédio para confortar o coração), declarando que o levará ao túmulo de Julieta e o usará lá. Romeu encerra a cena partindo para Verona.
No ato do pagamento, ocorre uma poderosa transvaloração das métricas humanas. O ouro, tradicionalmente visto como alicerce de poder e prestígio (o próprio motor das disputas na sociedade veronense), é denunciado por Romeu como o verdadeiro veneno que corrompe e assassina a alma dos homens. O composto químico, por sua vez, é poeticamente ressignificado como um “cordial” — um tônico revitalizante. Ocorre aqui a completa fusão da estética romântica: o mundo dos vivos, adoecido pelas guerras e pela ausência de Julieta, perdeu seu significado; a morte converte-se, desse modo, no único remédio possível, a terapia libertadora que permitirá o reencontro definitivo no leito nupcial de mármore.

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