Édipo Rei: Trecho 1 - 340

Resumo & Análise

RESUMO

A Reunião no Palácio
A narrativa tem início com uma multidão de cidadãos tebanos de todas as idades sentados em atitude de súplica nos degraus do palácio de Édipo, segurando ramos de oliveira suplicantes. O Sacerdote de Zeus toma a palavra e descreve a Édipo a severa peste que devasta Tebas. Ele relata a morte das colheitas, dos rebanhos e as mulheres dando à luz a crianças mortas. O Sacerdote implora, então, a Édipo, reconhecido como o salvador da cidade por tê-la libertado da Esfinge no passado, que encontre uma nova forma de resgatar o povo.
A Resposta de Édipo
O rei demonstra profunda empatia, afirmando que seu sofrimento é maior que o de qualquer indivíduo ali, pois ele chora pela cidade inteira, e revela que já tomou providências, informando que enviou seu cunhado, Creonte, ao templo de Apolo em Delfos para consultar o oráculo sobre como salvar Tebas.
A Chegada de Creonte
Creonte retorna de viagem no exato momento da reunião e, a pedido de Édipo, compartilha as notícias publicamente diante dos suplicantes. Relata que o oráculo de Apolo exige a purificação da cidade através da expulsão de uma “mancha”. Essa mancha é o assassino impune do rei anterior, Laio.  Édipo faz perguntas diretas sobre as circunstâncias da morte de Laio. Creonte explica que o antigo rei foi atacado em uma viagem, com apenas uma testemunha sobrevivente que alegou terem sido atacados por um grupo de salteadores.
O Compromisso Final
O prólogo se encerra com Édipo assumindo a responsabilidade integral pela investigação. Ele promete desvendar o mistério para vingar a terra, o deus e proteger a si mesmo de um possível ataque futuro, ordenando a convocação do povo tebano.

ANÁLISE

A cena inicial estabelece Édipo não apenas como um monarca político, mas como uma figura quase divina e paternal para os tebanos, sendo abertamente reconhecido como o salvador que já os libertou da ameaça da Esfinge. A atitude física dos cidadãos em súplica com ramos de oliveira ilustra a quebra da ordem natural e o desespero de uma cidade devastada, cuja gravidade é sublinhada pela esterilidade das colheitas e pelos nascimentos de natimortos. A atitude do rei demonstra empatia profunda, mas também uma autoconfiança limítrofe ao orgulho, evidente em sua declaração de que seu sofrimento engloba o de toda a cidade e na antecipação ágil de já ter enviado Creonte ao oráculo de Apolo. A exigência do oráculo pela expulsão da “mancha” (o assassino de Laio) é o motor da trama e o pilar da ironia dramática. Ao interrogar Creonte sobre as circunstâncias do crime e o suposto ataque de salteadores, a narrativa destaca o desconhecimento completo do protagonista sobre seu passado. O compromisso final do prólogo, onde Édipo promete desvendar o mistério para vingar a terra e proteger a si mesmo de um possível ataque, sela inconscientemente o seu próprio destino trágico.

A Entrada do Coro
Os anciãos de Tebas entram em cena formando o Coro, ainda desconhecendo as minúcias do oráculo recém-trazido de Delfos. O grupo canta clamando pela proteção das divindades de cura e sabedoria, invocando especificamente Atena, Ártemis e Apolo para que se manifestem.
A Descrição da Calamidade
O canto detalha minuciosamente a escala da tragédia em Tebas, citando a contagem incalculável de mortos, os gemidos que ecoam pela cidade e as esposas e mães chorando nos altares.
O Combate ao Destruidor
O Coro identifica a praga com a força destrutiva do deus Ares e roga a Zeus (com seus raios), Apolo (com suas flechas), Ártemis (com suas tochas) e Dioniso para que o expulsem das fronteiras de Tebas.

O Coro de anciãos entra em cena representando a bússola moral e emocional da pólis, ainda alheio aos detalhes específicos do oráculo recém-anunciado. A invocação fervorosa e direta a divindades como Atena, Ártemis e Apolo reflete a visão de mundo teocêntrica grega, onde uma calamidade terrena de tal magnitude exige necessariamente a intervenção e a proteção celestiais. A narrativa detalha o impacto psicológico e social da praga, utilizando a imagem de esposas e mães chorando nos altares em meio a gemidos constantes para dar peso à urgência da missão do rei. A personificação da doença como a força destrutiva de Ares, combatida pelas forças e armas de Zeus, Apolo, Ártemis e Dioniso, eleva o sofrimento de Tebas de um problema médico a uma verdadeira batalha espiritual e cósmica.

O Pronunciamento de Édipo
O rei se dirige ao Coro recém-chegado e afirma que sua palavra será o remédio para o mal, declarando-se estrangeiro em relação ao crime antigo. Édipo proclama oficialmente que qualquer pessoa que saiba quem assassinou Laio deve se apresentar imediatamente, prometendo impunidade àquele que confessar, garantindo-lhe apenas o exílio seguro.
A Maldição de Excomunhão
O rei estabelece punições severas para quem ocultar o assassino. Ele proíbe todos os cidadãos do país de abrigá-lo, falar com ele ou permiti-lo participar de ritos religiosos, sacrifícios ou purificações. Édipo decreta que, caso o assassino venha a compartilhar de sua própria casa e ele, o rei, tenha consciência disso, as mesmas maldições proclamadas deverão recair sobre a sua própria cabeça.
O Diálogo com o Corifeu
O líder do Coro se defende declarando não ser o assassino nem saber quem ele é. Em seguida, sugere que Apolo deveria nomear o culpado ou, na falta do deus, que se consulte o profeta cego Tirésias, famoso por sua visão sobrenatural. Édipo responde que não negligenciou esse passo; por sugestão de Creonte, já havia despachado duas escoltas para trazer Tirésias ao palácio.
A Chegada de Tirésias
O profeta entra em cena guiado por um jovem ajudante. O rei o saúda com deferência, exalta a vasta sabedoria cósmica e terrena do profeta, e suplica que ele utilize seus dons divinatórios para identificar os assassinos de Laio e resgatar a cidade da peste.
O Lamento e a Recusa de Tirésias
O profeta reage com profundo pesar, exclamando sobre o quão terrível é possuir conhecimento quando este não traz nenhum proveito. Ele se recusa abertamente a compartilhar a verdade, pede para que o deixem ir embora e aconselha Édipo a carregar seu próprio fardo. O trecho se encerra com Édipo demonstrando os primeiros sinais de raiva intensa diante do silêncio prolongado e da teimosia de Tirésias. O rei o acusa de hostilidade, de agir contra as leis e de trair a cidade que o criou ao negar-lhe a resposta salvadora.

O discurso inicial de Édipo é o ápice da ironia trágica aristotélica, pois, ao se declarar formalmente como um “estrangeiro” em relação ao crime antigo, demonstra sua ignorância letal sobre sua própria identidade e linhagem. O édito de busca cria um contraste legal: promete um exílio seguro para quem confessar , mas estabelece uma excomunhão absoluta, barrando ritos religiosos e convívio social, para quem acobertar o crime. A automaldição proferida pelo rei — declarando que as mesmas punições recairão sobre sua cabeça caso o assassino viva em sua própria casa — é o momento exato em que ele sentencia a si mesmo à ruína. A introdução do profeta Tirésias, cujas escoltas já haviam sido despachadas por sugestão de Creonte, consolida a dualidade central da obra. O Corifeu e Édipo reconhecem a visão sobrenatural e a vasta sabedoria do adivinho cego. O lamento imediato de Tirésias sobre a inutilidade dolorosa do conhecimento ilustra que possuir a verdade nem sempre significa possuir a salvação, justificando sua recusa veemente em falar. O trecho final evidencia o início do declínio psicológico do protagonista. A teimosia e o silêncio de Tirésias engatilham a cólera impetuosa de Édipo, que passa rapidamente do apelo reverente para acusações paranóicas de hostilidade e traição contra o profeta.

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