Cem Anos de Solidão: Capítulo 17

Resumo & Análise

RESUMO

A Senilidade e a Morte de Úrsula Iguarán
Em seus últimos anos, Úrsula encolhe fisicamente a tal ponto que passa a se assemelhar a um feto ou a um recém-nascido, sendo carregada e tratada como um brinquedo pelas crianças da casa, Amaranta Úrsula e o jovem Aureliano. A mente da matriarca perde a conexão com o presente, alternando entre a total inconsciência e delírios onde se mistura com figuras de um passado remoto. Úrsula falece na Quinta-Feira Santa, aos cento e quinze ou cento e vinte anos de idade, coincidindo com uma onda de calor insuportável na aldeia. Para o seu sepultamento, é necessário encomendar um caixão do tamanho de uma cesta de recém-nascido, dadas as suas dimensões finais.

ANÁLISE

A transformação física de Úrsula em uma figura diminuta, semelhante a um recém-nascido, é a materialização suprema do tempo circular na obra. Ao invés de avançar linearmente para a morte, a matriarca regride à sua forma de origem, demonstrando que, em Macondo, o fim e o começo são o mesmo ponto. A morte de Úrsula representa a queda do único pilar prático, moral e racional da família Buendía. Enquanto ela esteve viva (ainda que cega e senil), havia uma âncora que segurava a estirpe à realidade. Sua partida assinala que a família cruzou a linha de não-retorno em direção ao apocalipse. As dimensões do seu caixão (do tamanho de uma cesta de bebê) contrastam com a imensidão do seu impacto histórico. A morte de Úrsula coincidir com uma onda de calor insuportável atesta que o microcosmo cósmico de Macondo reage fisicamente à perda de sua criadora e guardiã.

Os Pássaros Mortos e a Captura do “Judeu Errante”
Nos dias próximos à morte de Úrsula, o calor excessivo provoca um fenômeno atípico: dezenas de pássaros mortos começam a cair do céu sobre Macondo, rompendo telas e mosquiteiros. O Padre Antonio Isabel, já muito velho e delirante, convence-se e prega pela aldeia que a onda de calor extremo e a mortandade das aves são sinais de que o “Judeu Errante” está caminhando pela região. Os moradores preparam armadilhas e acabam capturando e matando uma criatura monstruosa e bípede, descrita como um animal com corpo de bezerro velho e enormes asas de morcego, que é exibida e tida por alguns como a materialização do Judeu Errante.

A chuva de pássaros mortos e o calor sufocante são pragas quase bíblicas. Elas funcionam como um presságio cósmico de que a ordem natural de Macondo está desmoronando junto com a linhagem dos Buendía. A figura do Judeu Errante — tradicionalmente um símbolo de danação, exílio e imortalidade amaldiçoada — surge aqui como uma criatura patética e monstruosa. Isso demonstra o esgotamento do próprio realismo mágico na obra: o maravilhoso perde o seu encanto inicial (como a descoberta do gelo) e torna-se grotesco e agourento, refletindo a podridão interna da aldeia.

A Descoberta da Morte de Rebeca
Rebeca, a viúva de José Arcadio que vivia trancada em isolamento absoluto há décadas, falece sozinha em sua casa arruinada. Quando a sua residência é finalmente aberta, as autoridades encontram uma estrutura tomada pelo pó, por teias de aranha e por extrema deterioração. O corpo de Rebeca é encontrado em sua cama, encolhido em posição fetal, careca e com os polegares na boca.

Rebeca morre exatamente como viveu em suas últimas décadas: encerrada, isolada e esquecida. A sua posição fetal com os polegares na boca é um eco da mesma regressão sofrida por Úrsula, simbolizando um retorno a um estado primitivo de alienação. O fato de a porta de sua casa só ser arrombada após sua morte mostra como a sociedade de Macondo consome e esquece os seus próprios fantasmas. A poeira e as teias de aranha que engolem a casa de Rebeca antecipam o destino final de toda a aldeia.

A Doença e a Luta de Aureliano Segundo
Aureliano Segundo continua se submetendo a jornadas extenuantes para organizar rifas de terras e animais, visando juntar dinheiro para manter Fernanda e financiar a futura viagem de Amaranta Úrsula para a Europa. Ele desenvolve uma doença incurável e dolorosa na garganta que o sufoca lentamente, impedindo-o de comer e o consumindo fisicamente até os ossos. Pouco antes de sucumbir, atinge o seu objetivo financeiro e envia Amaranta Úrsula para Bruxelas, garantindo que o dinheiro restante fique sob a custódia de Fernanda.

Aureliano Segundo, que viveu a juventude inteira entregue à gula, à devassidão e ao desperdício, encontra em seu final um propósito nobre. O seu esforço destrutivo para garantir o futuro de Amaranta Úrsula é o mais próximo que um Buendía chega de um sacrifício por amor puro. A doença na garganta que o asfixia e o impede de comer é uma justiça poética e simbólica. O homem que foi a representação viva da abundância e dos banquetes colossais morre definhando, consumido por dentro, espelhando a transição de Macondo da prosperidade desmedida (era da Bananeira) para a miséria esquelética de seus dias finais.

O Fim do Isolamento de José Arcadio Segundo
José Arcadio Segundo permanece trancado de forma ininterrupta no quarto de Melquíades, obcecado pelo estudo e decodificação dos antigos pergaminhos do cigano. Ele estabelece um vínculo estreito com o jovem Aureliano (filho de Meme), ensinando-o a ler, a escrever e a organizar as pesquisas no quarto mágico. O velho transfere para o menino a missão de preservar a verdadeira memória de Macondo, insistindo sempre para que ele nunca esqueça o massacre da Companhia Bananeira.

Enquanto o resto de Macondo aceita a versão oficial do governo de que o massacre dos trabalhadores bananeiros não existiu, José Arcadio Segundo consagra os seus últimos dias a preservar a verdade. A transmissão dessa memória para o jovem Aureliano é o ato mais importante para a consumação do destino da família. Ele atua como o elo de transição entre o cigano Melquíades (autor dos pergaminhos) e o jovem Aureliano Babilônia (o decodificador final). O quarto de Melquíades reafirma-se como uma fenda atemporal, um espaço sagrado de lucidez em um mundo afogado em amnésia.

A Morte Sincronizada e a Troca dos Gêmeos
Os irmãos gêmeos, Aureliano Segundo e José Arcadio Segundo, falecem exatamente no mesmo dia e na mesma hora. Com o desgaste e o emagrecimento provocados pelas respectivas degradações, as fisionomias dos dois voltam a ser fisicamente idênticas no momento da morte, assim como eram na infância. Durante o funeral conjunto, os antigos parceiros de bebedeira de Aureliano Segundo, em estado de embriaguez profunda, encarregam-se de carregar os caixões. Em meio ao tumulto, à chuva e à falta de coordenação no cemitério, os caixões são acidentalmente trocados. Aureliano Segundo é enterrado na sepultura destinada a José Arcadio Segundo, e vice-versa.

A morte simultânea e a reaproximação física de Aureliano Segundo e José Arcadio Segundo até se tornarem idênticos atestam a futilidade do livre-arbítrio na estirpe Buendía. Apesar de terem vivido vidas diametralmente opostas (um mergulhado no excesso carnal e outro no isolamento intelectual/político), ambos terminam exatamente no mesmo ponto. O erro no momento do enterro é a piada suprema do destino cósmico. Desde a infância, eles brincavam de confundir os adultos trocando suas identidades; na eternidade, essa confusão torna-se definitiva. O enterro equivocado encerra a dualidade da família: em essência, sob a superfície de suas ações, todo Buendía partilha da mesma solidão e caminha para o mesmo abismo insondável.

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