Resumo & Análise
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Livro 1, Capítulo 9
RESUMO
A Caminhada Pelos Bairros Proletas e o Bombardeio
Winston Smith decide faltar a uma noite no Centro Comunitário (um ato que pode levantar suspeitas) para caminhar sem rumo pelas ruas de Londres habitadas pelos proletas. Durante a caminhada, ocorre o impacto de uma bomba-foguete. Winston joga-se ao chão no momento da explosão. Ao levantar-se em meio aos destroços, vê uma mão humana decepada no chão e, insensivelmente, a empurra para a sarjeta com o pé. Winston observa como, logo após o choque inicial e a verificação dos danos, a multidão proleta, especialmente as pessoas no mercado local, retorna imediatamente à agitação de sua rotina normal, como se a morte e a destruição fossem trivialidades.
ANÁLISE
A decisão de Winston de vagar pelos bairros proletas é uma manifestação física de sua dissidência mental. Ele busca instintivamente o contato com o mundo “real”, não filtrado pelo Partido, na esperança de encontrar resquícios de humanidade. O momento em que Winston chuta a mão decepada para a sarjeta é crucial. Demonstra que, apesar de sua rebelião interna, já foi psicologicamente corrompido pela brutalidade de Oceania. A apatia diante do desmembramento humano revela como o Estado conseguiu banalizar a morte e a violência. A rápida normalização do caos após a explosão evidencia por que a esperança de Winston nos proletas é, em última análise, trágica. O bombardeio constante os mantém em um estado de sobrevivência primária, onde o medo imediato substitui qualquer possibilidade de abstração política ou revolta estrutural.
O Encontro no Pub (Taverna)
Winston avista um homem muito idoso (aparentando ter oitenta anos ou mais) entrando em um pub que cheira a cerveja azeda. Winston deduz que esse homem viveu antes da Revolução e decide segui-lo para tentar obter informações sobre como era a vida no passado. Então, aproxima-se do homem no bar e oferece-se para pagar uma bebida para acalmá-lo, pois o velho estava discutindo com o balconista, exigindo uma pint (medida antiga de cerveja), enquanto o pub agora só serve em litros e meios litros, segundo o novo sistema. Winston tenta guiar a conversa, perguntando ao velho se a vida no passado (a época dos capitalistas de cartola descritos nos livros de história do Partido) era mais difícil ou opressiva do que no presente. O velho demonstra não ter uma visão histórica ou geral. Ele responde a Winston apenas com anedotas pessoais e triviais desconexas (como detalhes sobre brigas, roupas antigas e amigos mortos). Winston percebe que a memória factual do mundo antes do Partido desapareceu irremediavelmente até mesmo das mentes de quem o viveu.
Winston procura o velho na taverna como se buscasse uma “pedra de Roseta” — um arquivo vivo capaz de desmentir a historiografia falsificada do Ministério da Verdade. Ele precisa desesperadamente de um ponto de referência material para provar que a vida sob o capitalismo, por pior que fosse, não era o inferno absoluto descrito pelo Partido. O fracasso da entrevista é a prova do triunfo máximo do Grande Irmão. O velho não consegue fornecer um panorama do passado; sua mente está reduzida a uma “lata de lixo de detalhes” desconexos (como a disputa pela medida da cerveja). Orwell mostra aqui que, sem o registro documental (que o Partido destrói diariamente), a memória humana falha e se desintegra. Se os proletas não conseguem se lembrar de como era o passado, eles não têm base de comparação para julgar o presente, tornando a rebelião intelectualmente impossível.
A Loja de Antiguidades do Sr. Charrington
Ao sair do pub e continuar sua caminhada aleatória, Winston percebe que chegou à mesma loja de antiguidades onde havia comprado o caderno de páginas em branco que agora usa como seu diário. É recebido pelo Sr. Charrington, um homem de cerca de sessenta anos, de aparência frágil e modos gentis, que fala com um sotaque menos grosseiro que o dos proletas. Winston vasculha as peças da loja e acaba comprando um antigo peso de papel feito de vidro translúcido, pesado, que guarda em seu interior um pequeno e delicado pedaço de coral rosa. Ele paga quatro dólares pela peça. O Sr. Charrington convida Winston para ver um cômodo no andar superior. Winston entra no quarto, constata que ele possui uma mobília antiga, agradável e reconfortante, e, de maneira surpreendente, repara que não há nenhuma teletela nas paredes. Winston examina uma velha gravura pendurada na parede que retrata a igreja de São Clemente dos Dinamarqueses (St. Clement’s Dane). O Sr. Charrington ensina a Winston o início de uma velha cantiga infantil associada à gravura: “Laranjas e limões, dizem os sinos de São Clemente”.
O peso de papel de vidro com o coral no centro é o símbolo central da esperança de Winston. Representa algo inútil sob a ótica utilitarista do Partido, mas intrinsecamente belo e imutável. O vidro translúcido é o mundo intocado que Winston deseja habitar, e o coral é o seu próprio eu (e logo o de Julia), preservado no tempo. O quarto no andar de cima cria uma falsa sensação de santuário. A ausência aparente de vigilância seduz Winston a acreditar que existe um espaço fora do alcance do Panóptico do Partido. Este é o erro trágico do dissidente: subestimar a onipresença do Estado. A gravura da igreja e a rima ensinada pelo Sr. Charrington (“Laranjas e limões…”) evocam a pureza destruída. No entanto, na tradição inglesa, o final dessa cantiga é: “Aqui vem o machado para cortar sua cabeça”. Isso serve como um prenúncio sombrio (foreshadowing) do destino de Winston, sugerindo que o passado que ele tenta abraçar contém as sementes de sua própria destruição.
A Perseguição e o Pânico
Ao sair da loja e retornar às ruas escuras, o pânico toma conta de Winston. Ele vê a garota de cabelos escuros (Julia), do Departamento de Ficção, usando o macacão do Partido com a faixa escarlate da Liga Antissexo. A garota cruza o caminho dele e finge não olhá-lo, mas Winston tem a certeza absoluta de que ela o estava espionando e o seguiu deliberadamente pelos bairros proletas. Dominado por um pavor irracional, Winston cogita segui-la no escuro e esmagar seu crânio com o peso de papel de vidro que tem no bolso ou com um paralelepípedo. No entanto, o esgotamento físico, o medo que o paralisa e o fato de ela desaparecer rapidamente na rua o impedem de agir.
A visão da garota de cabelos escuros (Julia) destrói instantaneamente o frágil oásis mental que Winston havia construído na loja. Este momento ilustra a eficácia do terror psicológico do Estado: o cidadão nunca sabe quando está sendo vigiado, transformando qualquer encontro acidental em uma sentença de morte percebida. A reação instintiva de Winston — querer esmagar a cabeça da garota com o peso de papel ou um paralelepípedo — é de extrema importância analítica. O Partido não apenas oprime as pessoas; ele as transforma em monstros paranoicos, dispostos a matar seus semelhantes por sobrevivência. O instinto assassino de Winston prova que o sistema totalitário corrói a empatia e a solidariedade, os pilares fundamentais de qualquer revolução coletiva.
O Retorno ao Apartamento
Winston volta para o seu quarto no Edifício Vitória, sentindo-se já como um homem morto. Ele tem certeza de que a garota da Polícia do Pensamento o denunciará ao amanhecer. Sozinho com a teletela, ele retira uma moeda do bolso e encara o rosto do Grande Irmão gravado nela. A opressão dos lemas do Partido (“Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força”) se faz esmagadora. Winston tenta encontrar conforto lembrando-se novamente da voz de O’Brien em seu sonho, que lhe dizia: “Encontrar-nos-emos no lugar onde não há escuridão”. Ele encerra o capítulo imerso na agonia da inevitável captura nos porões do Ministério do Amor.
De volta ao apartamento, a moeda com o rosto do Grande Irmão e os lemas do Partido restabelecem a realidade opressiva. O Estado não controla apenas o espaço físico, mas domina as transações econômicas (a moeda) e a própria lógica (os lemas paradoxais). Winston aceita que já é “um homem morto”. Ao se conformar com a sua vaporização iminente, Winston se apega desesperadamente à memória da voz de O’Brien e à promessa do “lugar onde não há escuridão”. Esta é a mais profunda tragédia psicológica do romance: a necessidade humana de conexão é tão imensa que Winston projeta em O’Brien — um membro do Núcleo do Partido — o papel de salvador e confidente. Ironicamente, o “lugar onde não há escuridão” não é um paraíso de liberdade, mas as celas perpetuamente iluminadas do Ministério do Amor, onde Winston será finalmente torturado e quebrado. A esperança de Winston é, desde o princípio, uma armadilha armada pelo próprio sistema que ele tenta destruir.

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