RESUMO
A Aparição e o Horror do Coro
Édipo ressurge do palácio, cego e com o rosto ensanguentado. O Coro reage com extremo pavor, cobrindo os olhos, relatando a incapacidade de encarar o rei e descrevendo a sua condição como a visão mais terrível que já presenciaram. Édipo tateia no vazio e expressa a intensa dor física de suas feridas. Ele relata ouvir a própria voz sendo levada pelo ar e lamenta a escuridão irremediável que tomou conta de seus olhos.
A Atribuição da Culpa e da Ação
Quando o Coro questiona qual deus o levou a cometer tal mutilação, Édipo declara que Apolo foi o responsável por traçar e enviar o seu destino funesto. No entanto, ele afirma categoricamente que o ato físico de perfurar os olhos foi executado pelas suas próprias mãos, sem a ajuda de ninguém.
A Maldição ao Passador do Passado
Édipo recorda o momento de sua infância no Monte Citéron e amaldiçoa o homem que o desamarrou e o salvou da morte. Ele afirma que, se tivesse morrido naquele dia, não teria se tornado o assassino de seu pai, o marido de sua mãe e a desgraça de seus amigos.
O Apelo pela Punição Extrema
O rei suplica aos membros do Coro que o expulsem imediatamente da cidade, que o matem ou que o atirem ao mar, para que nunca mais os seus olhos possam pousar sobre ele.
ANÁLISE
A cegueira física de Édipo atua como a contraparte irônica de sua clarividência intelectual anterior. A análise demonstra que a perfuração dos olhos não é uma mera autopunição física, mas uma recusa visceral do mundo fenomênico. Ao cegar-se, a personagem iguala-se a Tirésias, trocando a arrogância da “visão” literal e lógica pela dolorosa e obscura “visão” interior da verdade irrefutável. O texto explicita uma das tensões mais profundas da tragédia grega através da mutilação. Quando Édipo atribui a Apolo a autoria de seu destino pernicioso, mas reivindica para si a autoria do golpe que o cegou, a narrativa estabelece uma complexa intersecção entre a presciência divina e a agência humana. A mutilação torna-se, paradoxalmente, o último e mais autêntico ato de livre-arbítrio e autonomia soberana do rei. O homem outrora reverenciado como o intelecto supremo que decifrou a Esfinge é agora reduzido ao miasma (impureza ou contaminação). A extrema repulsa do Coro reflete a desestabilização da ordem cósmica e social: o salvador da cidade foi revelado como a própria doença que a devorava. O horror repulsivo do Coro evidencia a quebra irreparável da conexão entre Édipo e a sociedade.
A Chegada do Novo Governante
Creonte, assumindo o controle de Tebas após a queda de Édipo, chega ao local. Ele avisa que não veio para zombar do antigo rei nem para lançar reprovações pelos atos passados. Creonte ordena aos guardas e aos presentes que recolham Édipo para o interior do palácio. Ele argumenta que o sofrimento familiar deve ser restrito aos parentes e que a impureza de Édipo não deve ser exposta à luz do sol, à terra ou à chuva.
O Pedido de Exílio e Enterro
Édipo faz duas solicitações a Creonte: primeiro, pede para ser expulso de Tebas em direção ao Monte Citéron, para morrer no local onde seus pais inicialmente o destinaram; segundo, pede que Creonte providencie um enterro adequado para Jocasta dentro do palácio.
O Destino dos Filhos e as Filhas
Édipo afirma que Creonte não precisa se preocupar com seus filhos homens, pois eles conseguirão sobreviver por conta própria. Contudo, direciona toda a sua súplica à proteção de suas duas filhas pequenas, Antígona e Ismene, pedindo permissão para tocá-las com as mãos.
Observa-se uma simetria invertida na relação com Creonte. O cunhado, que no princípio da obra foi acusado injustamente de traição e tirania por um Édipo irascível, assume agora o poder não pela força, mas pelo vácuo moral deixado pela queda do protagonista. A moderação pragmática de Creonte contrasta fortemente com a cólera anterior de Édipo, sinalizando a restauração da ordem institucional em Tebas. A ordem de Creonte para que Édipo seja imediatamente retirado da vista pública marca a transição do sofrimento da esfera política para a privada. A peça ressalta que a impureza absoluta gerada pelo parricídio e pelo incesto transcende o erro humano; ela atinge diretamente o sagrado. Como tal, ofende os deuses naturais (o sol, a terra, a chuva) e não pode ser exibida, indicando a completa desonra civil do antigo rei. A preocupação obsessiva de Édipo com o destino de suas filhas sublinha a catástrofe de sua linhagem. As filhas-irmãs (Antígona e Ismene) são analisadas aqui como o símbolo vivo e perene da transgressão. A fala de Édipo sobre o futuro arruinado delas demonstra a consciência aguda da herança do estigma social, que anulará qualquer perspectiva de inserção orgânica delas na pólis, como o casamento.
A Reunião com Antígona e Ismene
Creonte traz as duas meninas até Édipo, revelando que já havia antecipado esse desejo do antigo rei. Édipo reconhece o som do choro das filhas e agradece a Creonte por trazê-las.
O Lamento pelo Futuro das Meninas
Édipo tateia o rosto das filhas e chora. Ele descreve o futuro que as aguarda, afirmando que serão rejeitadas em festivais e reuniões públicas, e que nenhum homem desejará desposá-las quando souber da origem incestuosa e manchada de sua linhagem. O rei dirige-se a Creonte, lembrando-o de que ele é o único parente consanguíneo que restou às meninas. Édipo implora que Creonte atue como pai delas, para que não mendiguem e não sejam destruídas pela ruína que abateu a ele próprio, selando o compromisso com um toque de mãos.
A Separação e a Condução Final
Creonte diz a Édipo que o tempo de lamentar acabou e ordena que ele solte as filhas e entre na casa. Édipo reluta e pede novamente que Creonte confirme seu banimento imediato. Creonte responde que apenas os deuses podem conceder tal exílio e que Édipo não deve mais tentar comandar, pois seu poder chegou ao fim. As filhas são separadas do pai, e Édipo é levado para dentro.
A Declaração Final do Coro
O Corifeu vira-se para o público e relata os fatos finais: recorda quem foi Édipo — o decifrador de enigmas e o homem mais poderoso de Tebas, cuja sorte todos invejavam — e aponta para a onda de terríveis desastres que o engoliu. O Coro conclui com a máxima de que nenhum mortal deve ser considerado feliz até que tenha atravessado o seu último dia de vida sem sofrer dor.
O clímax do despojamento ocorre quando Creonte obriga Édipo a soltar as filhas e profere a sentença final: “Não queiras dominar em tudo; pois o poder de que te apossaste não te seguiu pela vida afora”. Este momento coroa a destituição heroica. A narrativa destitui o protagonista não apenas de seu trono, de sua visão e de sua cidade, mas retira-lhe a própria autoridade patriarcal, subjugando completamente a sua vontade. A insistência reiterada de Édipo em ser banido para o monte Citéron representa um retorno cíclico e punitivo ao princípio de tudo. O local selvagem que marcou sua sobrevivência infantil antinatural (onde deveria ter morrido recém-nascido) torna-se, simbolicamente, o único espaço legítimo para sua existência arruinada, fechando o círculo de um destino que ele e seus pais tentaram em vão subverter. O encerramento proferido pelo Coro transcende a narrativa individual de Édipo para formular a lição universal da peça. Ao recordar a grandiosidade anterior do rei e contrastá-la com o abismo de sua queda, o texto encapsula a instabilidade ontológica da condição humana. A exortação final — de que nenhum mortal deve ser considerado feliz até cruzar a fronteira da morte sem dor — atesta a completa subjugação da glória, do intelecto e da fortuna humana perante a inexorabilidade e os desígnios inescrutáveis dos deuses.

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