Édipo Rei: Trecho 341 - 708

Resumo & Análise

RESUMO

A Acusação Direta
Após ser severamente provocado pela fúria de Édipo, o profeta Tirésias rompe o seu silêncio e declara explicitamente que o próprio rei é o assassino de Laio e a causa da maldição sobre Tebas. Édipo recusa-se a aceitar as palavras do adivinho e passa a ofendê-lo, chamando-o de tolo e afirmando que Tirésias é cego não apenas nos olhos, mas também nos ouvidos e na mente.
A Teoria da Conspiração
O rei elabora a hipótese de que Tirésias e Creonte (seu cunhado) estão mancomunados em um complô político para usurpar o trono tebano. Tirésias rebate as acusações afirmando sua independência, ressaltando que serve unicamente ao deus Apolo. Em seguida, zomba da “visão” do rei, declarando que Édipo tem os olhos abertos, mas é incapaz de enxergar a corrupção de seus próprios atos e sua verdadeira origem.
A Profecia Final
Antes de se retirar do palácio, Tirésias lança um enigma sobre o verdadeiro assassino. Ele prevê que o culpado se revelará um cidadão nativo de Tebas, que é, simultaneamente, irmão e pai de seus filhos, além de filho e marido de sua própria mãe. O profeta conclui afirmando que esse homem terminará cego, pobre e exilado, tateando a terra com um cajado.

ANÁLISE

A ironia trágica atinge o seu ápice neste confronto. Tirésias, o profeta fisicamente cego, é o único que consegue “ver” a verdade absoluta, acusando diretamente o rei de ser a causa da maldição de Tebas. Em contrapartida, Édipo, que possui a visão física intacta, demonstra uma profunda cegueira intelectual e espiritual ao rejeitar a revelação, chegando ao ponto de insultar os sentidos e a mente do adivinho. A incapacidade de Édipo em aceitar a sua possível culpa leva-o a abandonar a racionalidade em prol de uma teoria da conspiração política irrazoável, acusando Creonte e Tirésias de orquestraram um golpe de estado. Este traço evidencia a fragilidade do poder absoluto e ilustra o início da degradação psicológica do “rei salvador” em direção a um governante paranoico. A resposta de Tirésias transcende a mera defesa da sua independência e submissão exclusiva a Apolo. Ao lançar o enigma final, o profeta expõe toda a resolução da trama de forma impiedosa. Ao prever que o culpado é, em simultâneo, irmão e pai dos seus filhos, além de filho e marido da sua mãe, Tirésias condensa o horror do incesto e do parricídio. A imagem final que descreve — a do rei que terminará cego, pobre e exilado, tateando a terra com um cajado  — não é apenas uma ameaça, mas a antecipação literal da peripécia (inversão da sorte) que destruirá Édipo.

A Fuga do Assassino
O Coro, formado pelos anciãos de Tebas, canta sobre o matador desconhecido. Eles o descrevem em constante e desesperada fuga, tentando escapar das profecias infalíveis de Apolo e da perseguição das Fúrias. Os anciãos expressam profunda angústia, choque e confusão diante das graves acusações proferidas por Tirésias contra Édipo. O grupo se mostra dividido, sem saber se deve dar crédito ao profeta divino ou ao monarca terreno.
A Declaração de Lealdade
Apesar da dúvida instalada, o Coro decide não condenar Édipo sem que haja provas irrefutáveis. Justificam sua lealdade lembrando que Édipo provou seu valor e sabedoria no passado, ao decifrar o enigma e salvar a cidade da Esfinge.

O canto do Coro projeta a imagem do assassino de Laio numa fuga constante e desesperada. Esta fuga das Fúrias e das profecias de Apolo sublinha a crença inabalável da antiguidade na inevitabilidade do destino: nenhum mortal pode escapar à omnisciência e à punição dos deuses. Os anciãos de Tebas personificam a desorientação de toda a cidade perante a crise. A sua profunda angústia e divisão representam o choque colossal entre o respeito reverencial pelo divino (encarnado por Tirésias) e a lealdade à ordem política terrena (encarnada por Édipo). A decisão final do Coro em exigir provas irrefutáveis antes de condenar o seu rei  ilustra o apego humano à razão e à gratidão. Eles agarram-se ao facto empírico de que Édipo salvou a cidade da Esfinge no passado, preferindo basear a sua lealdade nas provas concretas da sua genialidade anterior do que render-se imediatamente às palavras aterradoras, e até então infundadas, da profecia.

O Retorno de Creonte
Creonte chega apressado ao palácio após ser informado por terceiros de que Édipo o acusa publicamente de traição e de forjar falsas profecias. O rei sai de seus aposentos e confronta o cunhado com extrema agressividade, acusando-o face a face de ser o assassino de Laio e um usurpador.
A Defesa Lógica de Creonte
Creonte solicita uma discussão racional e apresenta sua defesa baseada na lógica de poder. Ele argumenta que, como cunhado do rei, já possui influência, riqueza e respeito iguais aos de Édipo, porém sem os fardos e os perigos da coroa, não havendo, portanto, motivo para desejar o trono.
A Sentença Inflexível
Édipo rejeita sumariamente os argumentos lógicos de Creonte, recusa-se a dar-lhe o benefício da dúvida e exige a sua condenação, declarando que deseja a morte ou o banimento do cunhado. Jocasta sai do palácio, atraída pelo tumulto. Ela repreende o marido e o irmão por estarem travando uma briga política e pública enquanto o povo de Tebas sofre e morre com a praga.
O Apelo Final e a Concessão Relutante
Jocasta e o líder do Coro imploram a Édipo que respeite o juramento de inocência que Creonte fez perante os deuses e que tenha misericórdia. Diante da forte pressão da esposa e dos anciãos, Édipo cede e permite que Creonte parta com vida, mas deixa claro que continuará a odiá-lo para sempre. O trecho se encerra com a saída de Creonte e o início dos questionamentos de Jocasta sobre a origem do conflito.

O confronto entre Édipo e Creonte contrapõe a agressividade cega à argumentação estruturada. Enquanto Édipo ataca de forma irracional, acusando o cunhado de ser um usurpador , Creonte defende-se recorrendo ao puro pragmatismo. A sua defesa baseada na lógica de poder — a de que já detém a mesma influência, riqueza e respeito que o rei, mas sem o fardo e a responsabilidade da coroa  — expõe a irracionalidade crescente das acusações de Édipo. A recusa categórica de Édipo em ouvir a lógica de Creonte ou de lhe conceder o benefício da dúvida, culminando na exigência da sua condenação à morte ou ao exílio, marca a transição definitiva do líder benevolente do prólogo para um tirano inflexível, movido apenas pelo seu próprio medo e cólera. A entrada em cena de Jocasta  desloca o conflito do domínio puramente político para o seio familiar. Ao repreender o marido e o irmão por travarem uma querela pública no exato momento em que o povo de Tebas sucumbe à praga, a rainha atua como uma força apaziguadora que tenta desesperadamente restaurar a proporção e a ordem das coisas. A cedência de Édipo em poupar a vida de Creonte não advém de um reconhecimento racional de erro, mas sim da enorme pressão imposta pelos apelos de Jocasta e do Coro, que imploram pelo respeito aos juramentos sagrados. Ao deixar claro que continuará a odiar o cunhado, Édipo garante que a atmosfera de tensão permaneça. Ironicamente, esta pacificação superficial é o que abrirá caminho para os questionamentos subsequentes de Jocasta, cujas respostas, na tentativa de acalmar o rei, acabarão por aproximá-lo ainda mais da verdade trágica.

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