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John Milton é um dos maiores gigantes da literatura, teologia e política da Inglaterra do século XVII. A sua biografia é uma narrativa épica de um homem que sacrificou a própria visão em nome de ideais republicanos e que, na mais absoluta escuridão e sob o constante medo da execução, ditou o maior poema épico da língua inglesa.
John Milton nasceu em 9 de dezembro de 1608, na cidade de Londres. O seu ambiente familiar e a sua rigorosa formação intelectual moldaram de forma indelével a sua vasta erudição.
O seu pai, também chamado John Milton, era um próspero escrivão e um talentoso compositor musical. Foi neste lar imerso na música e nas letras que o jovem John desenvolveu o seu profundo gosto pelas artes.
Milton frequentou a prestigiosa St Paul’s School e, posteriormente, o Christ’s College, na Universidade de Cambridge. Devido aos seus longos cabelos loiros, traços delicados e uma postura moral vista como puritana, ganhou dos seus colegas o apelido irônico de “The Lady of Christ’s” (A Senhora de Christ’s).
Já em Cambridge, demonstrou o seu gênio poético ao escrever versos notáveis em inglês e latim, destacando-se a brilhante ode On the Morning of Christ’s Nativity (Na Manhã do Nascimento de Cristo, 1629).
Após deixar Cambridge, Milton recusou-se a seguir a carreira clerical na Igreja Anglicana, pois discordava ferozmente da sua hierarquia.
Ele retirou-se para a propriedade do pai em Horton, onde passou seis anos num programa rigoroso e autodidata de leitura. Estudou teologia, história, filosofia e literatura clássica, preparando-se para cumprir o seu destino como um grande poeta.
Em 1638, iniciou um Grand Tour pela Europa. Em Florença, na Itália, protagonizou um dos encontros mais simbólicos da história intelectual: visitou o idoso e já cego Galileu Galilei, que se encontrava em prisão domiciliar por ordem da Inquisição. Esse encontro cimentou o ódio vitalício de Milton à censura e à opressão do pensamento livre.
Com a iminência da Guerra Civil Inglesa, Milton encurtou a sua viagem. Durante quase duas décadas, colocou a poesia em segundo plano para usar a prosa panfletária como arma política.
Em 1642, casou-se com Mary Powell, uma jovem de família realista (apoiadora do Rei) que o abandonou pouco tempo depois. Isso levou Milton a escrever textos polêmicos argumentando que a incompatibilidade de gênios era razão suficiente para dissolver o matrimônio.
Quando o Parlamento inglês tentou censurar os seus textos, Milton respondeu com a sua mais brilhante obra em prosa, a Areopagitica. O texto é um apelo apaixonado e monumental contra a censura prévia, cujos argumentos fundaram a base da liberdade de expressão moderna.
Milton aliou-se à causa parlamentar e puritana contra a monarquia absoluta de Carlos I.
Com a execução do Rei (1649) e a instauração da república sob Oliver Cromwell, Milton foi nomeado Secretário de Línguas Estrangeiras. A sua função era redigir correspondências diplomáticas e defender o regicídio perante a Europa.
O trabalho extenuante destruiu a sua visão. Em 1652, aos 43 anos, Milton ficou completamente cego. No mesmo ano, perdeu a esposa Mary e o seu único filho varão. Imortalizou a sua dor e fé no célebre soneto When I Consider How My Light is Spent.
Em 1660, a monarquia foi restaurada sob o Rei Carlos II. Como defensor do regicídio, a vida de Milton corria grave perigo. Ele foi preso e esteve à beira da execução, sendo salvo graças à intervenção de amigos influentes, como o poeta Andrew Marvell.
Cego, empobrecido e politicamente derrotado, ditou de memória a sua obra-prima indiscutível: Paraíso Perdido (Paradise Lost, 1667).
O poema narra a rebelião de Satanás contra Deus, a queda dos anjos e a tentação de Adão e Eva. A construção complexa, carismática e trágica de Satanás tornou-se um marco absoluto na literatura mundial.
Milton ainda publicaria Paraíso Recuperado e a tragédia Sansão Agonista (1671).
John Milton faleceu em novembro de 1674, vitimado por complicações relacionadas com a gota. O seu impacto na literatura ocidental é imensurável. A sua mestria estrutural ecoou através dos séculos, fascinando os poetas Românticos. O poeta William Blake chegou a afirmar que “Milton pertencia ao partido do Diabo sem o saber”, identificando no anjo caído o próprio espírito revolucionário do autor.
A biografia de John Milton nos recorda que as mais brilhantes visões de liberdade humana e glória divina podem, paradoxalmente, ser forjadas a partir da mais completa escuridão.

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